terça-feira, 6 de janeiro de 2015

O débito e o crédito, que não temos

Antes de mais é necessário esclarecer aquele erro comum à maioria da população (como muitos outros). Meus caros, vocês não possuem um cartão de crédito mas sim de débito e agradeçam por isso. A diferença gramatical é relativa, embora óbvia, a real, no entanto, é bastante preocupante.
O cartão de débito permite a compra de determinados produtos em função dos fundos que o seu portador possui, assim, como o nome indica, consiste no débito do valor da compra diretamente na conta corrente ou poupança do possuidor do cartão. Desta forma, aquele que deseja obter um produto  só o obtém caso tenha saldo para isso.
O cartão de crédito, por outro lado, é geralmente utilizado como meio de pagamento de bens ou da contratação de serviços, sendo o valor dessas mesmas compras cobrado no final do mês ao seu titular que, por sua vez, pode escolher pagar o valor total ou parcial que lhe é apresentado sob a cobrança de juros.

Pois bem, tecnicismos à parte, tudo isto consiste, muito resumidamente, na cobrança mensal, ou não, de pequenos empréstimos. Reparem que o individuo que possui um cartão de crédito ou é alguém que, de facto, tem a capacidade monetária para o ter ou, noutros casos, alguém que gosta de roçar o limiar da pobreza sem que ninguém o saiba. Este segundo sujeito, na minha opinião incapacitado de qualquer tipo de consciência, é o que gosta de “brincar” com o dinheiro que não tem, caindo num novo tipo de consumismo, o frenético, avassalador, sugando as novas tendências e tudo um pouco porque, lá está, abaixo da pobreza nada existe. Só a morte que provavelmente é menos incómoda para o sujeito que falece do que para quem o rodeia.

Parallel Reality


Ao longo dos anos os jogos tiveram um avanço de tecnologia fantástico a ponto de poder determinar gerações, por exemplo o Píxel, o 2D, o 3D e por ai adiante.

Mas qual será a principal razão deste avanço?


Para começar, decorreu-se a evolução dos meios tecnológicos e com ela surgiram as tais novas plataformas para acompanharem e demonstrarem a capacidade destes em termos de jogabilidade.No entanto, essa não é a razão principal da evolução dos jogos.

Esta reside, simplesmente, na aproximação ao máximo da realidade e, consequentemente, o desejo fatal de querer ser a personagem, viver e permanecer noutro mundo de fantasia.

Essa ideia, originalmente, surgiu com o cinema, que tem vindo a saciar esse desejo parcialmente, proporcionando-nos sensações, sentimentos e imagens pouco comuns no nosso dia-à-dia com o auxílio de histórias emocionantes ou aterrorizantes.

Até que apareceram os jogos e estes alcançam o mesmo objectivo, mas adicionando um pequeno extra.
Existe uma história e um personagem, mas o espectador está mesmo envolvido, no sentido literal de “vestir a pele” da personagem, contrariamente a apenas imaginar-se no lugar do indivíduo.

Jogos, como o Pac-Man, o Bomberman, Super-Mario (que acompanhou muitas gerações desde o Pixel), Hugo, Croc e Sonic são entre os muitos exemplos de personagens cujo foi-nos permitido passar a sua historia.

Mas os jogos não se limitaram a isso. Estabeleceram novas metas, tomemos como exemplo os jogos de tiros, em que apenas é visível umas mãos no ecrã, sugerindo que o resto do jogador somos nós ou algo que quisermos imaginar. E com isso apareceram jogos que originaram em vários géneros e, por sua vez, diferentes papéis para o jogador desempenhar. Estes também abriram novos caminhos para interacçao entre o jogador e o mundo representado no jogo.

Quando finalmente parecia que não havia hipóteses de evoluir ainda mais, foram criados componentes tecnológicos inimagináveis como, por exemplo, televisões no chão para jogar à bola ou o famoso “Oculus Rift”: um dos mais recentes e disponíveis, passo para uma realidade paralela. Este acessório servirá na vez dos controlos de câmera, ou seja, o movimento da nossa cabeça passará a indicar o movimento da câmera no jogo em simultâneo.
A evoluçao permitiu cada vez mais, com a introdução de novas formas de jogar, a possibilidade de uma maior imersão mental e até física do jogador, como o que acontece com jogos de horror ou de acção: ambos obrigam o jogador não só a estar mentalmente alertado, mas igualmente desafia fisicamente o jogador quando este é posto em situação de perigo repentinamente, forçando-o a actuar no momento. O oculus rift é uma nova oportunidade para os jogos de horror, é criado mais facilmente o ambiente, e a sua credibilidade não é tão questionada.
O uso dos sentidos, a utilização do microfone, são tudo ferramentas que estão a ser atualmente exploradas intensamente, como por exemplo o cheiro nos cinemas, ou água num parque de diversões que salpica de vez de enquando.

Hoje em dia, os jogos promovem a interacção física seja para interagir entre família ou até animais virtuais, assim como incentivam a fazer exercício.
Em suma, o ser humano continuará a procurar novas maneiras de provocar sensações raras, uma vida imaginária de fantasia. Talvez um dia consigamos ter asas e voar. 
Até lá aqui deixo um video do futuro:



# Consumo Conspícuo

Consumo conspícuo (Thorstein Veblen, 1899), é o termo usado para descrever os gastos em mercadorias e serviços de luxo adquiridos com o propósito de mostrar riqueza. 
A sociedade em geral opta pelos produtos luxuosos ao invés dos produtos de marca branca que são consideravelmente mais baratos. A publicidade desempenha aqui um papel crucial, levando o público a crer em diferenças inexistentes entre os produtos. Estas quando colocadas em confronto por ditos conhecedores da matéria, discutindo as suas vantagens e desvantagens, serve apenas para perpetuarem a ilusão da concorrência e da possibilidade de escolha. Como fala Adorno e Horkheimer em relação á serie Chrysler e a serie General Motors em 'A Industria Cultural'
Porque é que existe esta preferência por produtos luxuosos, despendendo mais dinheiro conscientemente/inconscientemente quando este não se justifica?
Segundo Marx, a mercadoria não é somente uma forma material destinada a exercer a sua função e satisfazer as necessidades do ser humano. 
"É uma coisa muito retorcida, cheia de subtileza, metafisica e de extravagâncias teológicas." "O misterioso da forma-mercadoria consiste simplesmente no facto de ela reflectir para os homens os caracteres socias do seu próprio trabalho como caracteres objectivos dos próprios produtos de trabalho, como qualidades naturais sociais dessas coisas, e por isso também a relação social entre os objectos existentes fora deles." 
Parecem figuras autónomas dotadas de vida própria, em relação entre si próprias e com os homens.
Sociologicamente, para o consumidor conspícuo, uma exibição pública de ilimitado poder económico é um meio de alcançar ou de manter um determinado status social. O Instagram vem satisfazer as delícias deste tipo de consumidores. Uma rede social que permite ao utilizador uma partilha de fotos dos seus pertences, de uma forma rápida e eficaz. Exibindo-se e evidenciando os seus atributos provocando a inveja alheia.
Recentemente apareceu o conceito donwshifters- tipo de pessoas que consomem menos sem receio de deslizar socialmente. Fenómeno que ainda não representa uma tendência social mas que também não escapa á logica do consumo. Existe competição social entre estes
.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Intersecções



Laura Mulvey em " Visual Pleasure and Narrative Cinema "in Screen, vol.16 , refere que Jacques Lacan descreve o momento em que a criança reconhece a sua imagem ao espelho como crucial para a constituição do seu ego (construir a sua própria identidade).

Lacan no seu texto " What is a picture? " in Nicholas Mirzoeff, The Visual Culture Reader, refere que quando eu sou olhado eu sou uma imagem. Na verdade, se isto é assim, quando a criança se reconhece ao espelho compreende que, para usar uma linguagem imunológica, um non-self se pode integrar no seu self, de forma similar ao que lhe aconteceu no útero materno.

Creio que isto se integra na imagem como re-presentação (ressurreição) referida por Barthes em " Réthorique de l´image " in L´obvie et l´obtus. De facto, um " retorno ao útero " segue-se inevitavelmente por um novo nascimento.

Os Números


Ao observar a minha irmã mais nova a fazer os seus trabalhos de casa de Matemática, lembrei-me de um dos princípios da linguagem determinados por Ferdinand Saussure, nomeadamente, a arbitrariedade do signo. Isto porque os nomes dados aos números que conhecemos – os significantes – nada têm a ver com o que estes mesmos representam – os significados. No caso da palavra “quatro”, por exemplo, esta não corresponde obrigatoriamente à ideia de 4 elementos, pelo que é o ser humano quem estabelece a ligação entre a ideia e a palavra de modo a conseguir comunicar. E tão frágil e arbitrária é essa ligação que, embora o número 4 (signo) seja universal e facilmente compreendido por qualquer pessoa do mundo, o nome (significante) que lhe é atribuído varia consoante o país em que cada um esteja, já que a palavra utilizada para o designar se altera.
Assim sendo, é necessário conhecer estas relações já estabelecidas, pelo que as crianças começam desde cedo a aprender os números, os nomes que lhes são atribuídos e as relações entre eles, para que possam depois comunicar com as pessoas da sociedade onde se inserem. Esta aprendizagem é arbitrária e tão natural que, já crescidos, não se questionam “porque é que o número 4 se chama quatro e não outra coisa” mas aceitam-no porque assim o aprenderam.


Reprodutibilidade Técnica e o cinema

O século XX testemunhou o desenvolvimento da cultura de massas. O indivíduo deixou de se distinguir no meio da multidão, os comportamentos da sociedade uniformizaram-se e aqueles que detinham o poder utilizam-no para estabelecer modelos de comportamento e padrões de rotina. O cinema contribuiu para esta mudança, apresentando-se como um dos agentes que esteve por detrás da modificação da dinâmica na sociedade. É através do cinema que determinados pormenores, que nos passam despercebidos enquanto espetadores, são realçados, o que nos possibilita aumentar a nossa compreensão relativamente a aspetos da nossa existência e do mundo que nos rodeia, dado que estes ficam como que “gravados”, o que nos assegura um enorme campo de ação. Neste sentido, a arte dissolve-se na vida, assumindo um valor político, e adquirindo um sentido mais profundo na vida do homem. 
Os meios de comunicação adquiriram grande poder no desenvolvimento e  na mudança da sociedade, uma vez que desempenham, cada vez mais, um papel decisivo na mudança de consciência na sociedade de massas. No caso do cinema, não existe tempo de reflexão e reação perante aquilo que o espetador recebe, porque o comportamento da imagem não é estático, isto é, antes que uma imagem possa ser assimilada, outra é recebida. Deste modo, são lançados, inconscientemente, novos saberes, dado que o espetador não possui o tempo necessário para uma meditação ou reflexão sobre aquilo que recebe. 
Dado que a novidade surge, atualmente, com uma enorme frequência, motivada pelo avanço tecnológico, o homem já está adaptado a estas inovações que fazem parte do seu dia-a-dia. Assim, sendo que a novidade surge de um modo mais radical, o homem adaptou a sua capacidade de captação, de modo amplificá-la e tornando-a mais recetiva a estímulos exteriores. 

Superficiali(Bel)dade

Nos dias que correm, a maioria dos seres humanos, talvez uma ideia mais associada ao sexo feminino vive numa constante necessidade de criação de imagens, quer de si mesmos, quer do que os envolve, criando assim, muitas das vezes a existência de padrões.
Um dos constantes padrões associados à sociedade é a Beleza. Este mesmo padrão está também ele próprio em realidade paralela com o contexto social, ou, especificando o tema, das “Modas” que é também por si só um objecto cultural devido à sua existência arbitrária consoante os tempos.
A noção de Beleza pode então ser entendida como um símbolo de poder por meio da ostentação de um determinado objecto que na sua realidade é meramente fictício, assim como, a falsa noção de competição entre indivíduos distintos entre si - isto, porque tudo é uma imagem dos próprios.
A Beleza está então num possível patamar que poderá ser adjectivado como superficial, logo, os que prezam e fazem para preservar essa mesma imagem em si próprias poderão de alguma forma ser tituladas por superficiais.
Por outro lado, podemos também ter a noção de conservação de Beleza, como uma conservação de bem-estar contínua, fazendo uma possível anulação da sugestão inicial de superficialidade. No entanto, a este respeito tenho como conhecimento experienciado que as pessoas que vivem para os pequenos prazeres do bem-estar são, ou acabam por se tornar, na sua maioria, de um patamar completamente superficial devido à crença de que as coisas serão a sua realidade deixando-se desta forma alienadas pelo próprio objecto, sendo que, as mesmas, fazem dos “pequenos prazeres” materiais, a sua própria pessoa.
A superficialidade é assim o meio de ostentação para aqueles que têm em si a crença de um alguém melhor por meio do mundo das coisas, e, assim, seguindo a lógica de Karl Marx, podemos até afirmar que esta troca de dependência por parte do sujeito é uma prática de destruição do verdadeiro valor de si próprio.
Desta forma, o sujeito deixa de se viver para se deixar levar pela onda de um ser vivido, tanto pelos próprios objectos como também pelos outros tantos indivíduos de mentalidade semelhante que o rodeia.
Concluo assim que o homem passa a ser mais coisa, talvez mais do que as próprias coisas, havendo a necessidade, não por parte do objecto inanimado, mas sim pelo sujeito que pessoalmente assumo como “robótica”, que apresenta um estado de necessidade para a realização desse algo para o seu chamado “bem-estar” psicológico que contribuirá para um estado de beleza mais considerado, sendo muitas das vezes esse tipo de bem-estar, trocado por aquilo que são as reais necessidades do próprio.
              Para terminar, para que o leitor sinta alguma abertura intelectual relativa ao tema do próprio trabalhar da Beleza e por sua vez, do bem-estar, deixo por fim um excerto de uma das minhas mais recentes leituras com uma outra visão mais literáriamente trabalhada, também relativa à Beleza:


“Sorri? Ah! Quando a tiver perdido não sorrirá…Dizem às vezes que a Beleza é superficial. Talvez. Mas pelo menos não é tão superficial como o Pensamento. Para mim, a Beleza é a maravilha das maravilhas. Só as pessoas banais é que não julgam pelas aparências. O verdadeiro mistério do mundo é o visível, e não o invisível…”
    Contemporânea idade



   Daqui a 200 anos a Arte deles, ainda se vai chamar Contemporânea, ou vai ser um estilo que passou? 
     Ninguém sabe mas podemos supor; cá para mim vai mudar de nome, vão aparecer outras realidades e darão importância a outras questões, tem sido sempre assim. Confie-mos nos artistas que são pessoas criativas e procuram singularidade. 
       A Arte contemporânea tenta ser livre, afastando-se de tudo o que já foi feito , neste aspecto é livre. A total liberdade de expressão faz parte do seu conceito, e ninguém mete em causa. Por outro lado criou-se um estilo, para um variado numero de pessoas, que faz o mesmo género de coisas. Mesmo que não sejam visualmente, os processos e a atitude são idênticos. A intenção de inovar e a oposição aos valores tradicionais contínua, mas mesmo assim apesar de opositores, existe aproximação deles ao estilo corrente.  

        Para um movimento que se caracteriza pela sua liberdade, onde os autores tentam ser autênticos, aconteceu um tipo de incorporação. São a situações destas que podemos designar por resistência. A arte contemporânea é vitima de incorporação, porque adquirío valores de outras manifestações artísticas, nomeadamente Minimalismo, Modernismo, Dadaísmo, Futurismo e até Expressionismo.              
       Têm outros significados ou algumas semelhanças para diferentes àreas, mas em arte resistência, aplica-se a aspectos ideais. Para concluir; de um modo geral novas ideias são criadas, acabam por se instaurar mas imediatamente há logo contra-reacção para com elas. A resistência tem duas caras, quer é da parte de um pequeno grupo que se opõe ao grupo maioritário, tal como o contrário.

Cinema e códigos de representação

Todos nós já fomos ao cinema, uns mais que outros, e todos nós vivenciamos o prazer proporcionado pelo cinema, que advém de questões relativas ao olhar. Quando se vai ao cinema o espectador é absorvido pelo filme, vivenciando a fascinate condição de voyeur, espreitando as vidas privadas das personagens.
Segundo Laura Mulvey, todo este processo do olhar está ligado a uma sociedade patriarcal, que induziu no cinema códigos de representação que dirigem a maneira como a figura masculina e feminina são abordadas. Deste modo, Mulvey no seu livro Prazer visual e cinema narrativo afirma que a narrativa clássica do cinema americano dirige o olhar do espectador a uma certa conformação ideológica. Mulvey argumenta que as convenções do cinema fazem uso do corpo feminino enquanto objeto erótico, estabelecendo uma perspectiva e um olhar masculino. Há uma tensão entre o desejo que o corpo feminino incita nos personagens e o desejo que este mesmo corpo desperta no espectador, mas por identificar-se com o protagonista do filme, o espectador compartilha com ele o prazer visual de olhar e possuir a mulher cuja imagem é refletida no filme.
Um dos meus filmes favoritos e que voltei a rever nestas ferias de Natal foi Vertigo de Alfred Hitchcock. No filme o detetive Scottie é contratado por um velho amigo para que este vigie e siga os passos da sua esposa Madeleine, que supostamente, sofre de distúrbios que a fazem ser atormentada por uma mulher morta há muito tempo. 
Durante o filme de Hitchcock a câmera segue sempre Scottie, no entanto há algumas exceções, por exemplo: quando o detetive vai a um restaurante para conhecer, de longe, Madeleine. A movimentação da câmera é bastante subtil, percorrendo a habitação, até que algo capta a sua atenção: este algo é Madeleine. A partir do momento em que a câmera a encontra,  esta aproxima-se da mulher, como um observador à espreita.
Dessa forma, a câmera separa-se do detetive, mas ainda assim compartilha com ele a fascinação por Madeleine, da mesma maneira que partilha com o espectador que assiste ao filme a mesma fascinação. 
Aqui já podemos constatar várias questões abordadas por Laura Mulvey tais como: o prazer de Scottie, que permanece como um voyeur, sempre observando a mulher, sem que ela saiba que está a ser observada; o narcisismo que provoca o espectador, já que este acaba por se identificar com o detetive; e o processo de fetichização que se inicia a imagem de Madeleine, começa a se configurar como uma imagem idealizada, quando a vemos caminhando em direção à câmera e depois observamos o seu perfil, temos a mesma certeza que Scottie, de que ela simboliza a beleza máxima. A personagem Madeleine aparece totalmente objetificada como uma imagem erótica e também como foco da obsessão sexual do detective Scottie.
Assim, o protagonista masculino da narrativa, assume o papel ativo de possuidor do olhar do espectador espreitando uma mulher que ele não conhece e que acaba por se tornar o foco do seu olhar. Ambos protagonista e espectador posicionam-se como voyeurs, o que significa que todos nós quando vamos ao cinema partilhamos a mesma fixação que os atores do filme, uma fixação imposta. Tudo isto me fez pensar e questionar os códigos de linguagem visual no cinema dominante, no qual, se pensarmos e analisarmos, predominam quase sempre formas de representação da mulher regidas por valores que a sociedade impõe, como afirma Laura Mulvey, uma sociedade patriarcal.

Todas as laranjas são laranja


Laranja (fruto) – A palavra tem a sua origem no árabe naranj. Neste contexto designa:
1. Fruto comestível da laranjeira, de forma esférica, casca dura e polpa dividida em secções, rodeadas por uma película fina.
O fruto provém da Citrus aurantium e mais tarde Citrus x sinensis

Laranja (cor) – A palavra é homógrafa de naranj, cujo nome lhe foi atribuído devido ao fruto embora a cor tenha existido primeiro. Neste contexto significa: 
2. Cor característica da casca da laranja, entre o amarelo intenso e o avermelhado, ou que tem essa cor.
A cor laranja tem um comprimento de onda de 620-585 nanómetros e em termos cromáticos surge da junção de magenta com amarelo.

“O signo linguístico une não uma coisa e um nome, mas um conceito e uma imagem acústica.” -Ferdinand Saussure

O significante Laranja é composto pelos significados, laranja (fruto) e laranja (cor). Na ausência do significado não somos capazes culturalmente de os distinguir pois não percepcionamos o audiovisual da palavra escrita. O laranja em si sem estar associado ao material (cor ou fruto) pode ter para nós um significado semelhante, porém os dois conceitos são indissociáveis, talvez pelo facto do nosso entendimento não os conseguir separar. Constatamos que todas as laranjas são cor de laranja mas nem toda a matéria cor de laranja são laranjas (fruto).
A sociedade associa o físico às ideias estabelecendo conexões e criando consequentemente os signos. No Curso de Linguística Geral, Ferdinand Saussure refere que por vezes as ideias surgem antes das palavras, o que se verifica neste caso pois a ideia de laranja já existia no espectro visível muito antes de lhe ter sido atribuída uma identificação que torna possível o seu reconhecimento enquanto forma.
É intrigante pensar como o significado determina o significante e de que forma uma cultura estabelece ligações que comprometem a evolução social e o modo como percepcionamos o que nos rodeia desde cores a objectos.




O Valor Subjectivo da Moda

Segundo Marx, o valor de uma mercadoria seria determinado pela “duração temporal daquele dispêndio ou a quantidade do trabalho” (Karl Marx, O Capital: Crítica da Economia Política, vol. 1. Moscovo, Lisboa: Progresso, Avante!). Ou seja, a quantidade e qualidade do trabalho seria proporcional ao valor dado ao objecto. E este adquiriria propriedades com vista nas necessidades humanas, através do trabalho humano.
Mas uma situação que Marx expõe é a do aparecimento de um elemento sobre-sensível que se impõe à mercadoria e vai contra a base da determinação da magnitude de valor: “Assim, o carácter místico da mercadoria não brota do seu valor de uso.” (Karl Marx, O Capital: Crítica da Economia Política, vol. 1. Moscovo, Lisboa: Progresso, Avante!). O produto do trabalho vai revelar também uma forma social. E então, a forma-mercadoria torna-se em algo completamente subjectivo, pelo facto dos produtos que possuímos reflectirem caracteres sociais e não simplesmente uma forma material com uma função específica.

Um grande exemplo actual do fetiche na mercadoria é o da indústria da moda. As marcas, estilistas, modelos, desfiles, têm elementos de culto tão fortes como se de uma religião se tratasse. Hoje em dia, uma pessoa que dê mais dinheiro por uma peça de roupa, não o será bem pela qualidade, quantidade ou duração de trabalho no produto. O comprador paga pela marca, um ideia simbólica de valor e, acima de tudo, um estatuto. Há marcas bem reconhecidas, que estão ligadas a toda uma ideia de luxo, poder, desejo, sucesso e que, também por serem mais caras (e desde logo, não para todos) são também mais cobiçadas. Verifica-se, então, um fenómeno do idolatro à marca. Há equipas de futebol, festivais de música ou até celebridades reconhecidas mundialmente que são pagas, para darem a cara a certos produtos. Assim, o valor da mercadoria vai dissolver-se com muitas associações ligadas a essas referências chegadas ao público. E aos olhos das pessoas, esse produto estará também a vender um tipo de corpo, um talento, popularidade, etc, mas do que apenas a materialidade da mercadoria.

A própria ideia de moda é muito “pré-concebida”. Todas as épocas, há grandes desfiles que apresentam as colecções de forma vangloriosa. As várias referências do mundo da moda aparecem em diversas plataformas apresentando as novas trends, como se tratassem dos maiores desejos e necessidades das pessoas.
É a indústria que define o que se considera actual, numa estratégia que se verifica também muito na tecnologia, em que muitas destas mercadorias têm um valor efémero, pois há sempre novos produtos, mais recentes, mais na moda e que servem mesmo para substituir os anteriores, recomeçando o ciclo que alimenta a indústria. Os compradores vão atrás do que a as marcas validam como novo e bom, sendo que muitas vezes esses produtos se podem encontrar noutras marcas “brancas” ou mais baratas, ou até mesmo nos roupeiros dos pais/avós. Mas as pessoas vão querer ter as roupas da marca, por desejarem todo o “místico” que a envolve. E essas peças terão o logótipo da marca em grande destaque, pois o que os compradores querem é a validação do estatuto, que a marca oferece. Pois o que mais lhe dá valor é possuir algo que é desejável no geral e poder mostrar que se tem, à procura do reconhecimento das outras pessoas e tornando-se parte de um certo grupo ou estatuto.

E é assim que são os produtos mais específicos e ligados a diferentes ideias de valor, os que as massas mais querem, sendo actualmente se investe muito na publicidade que acrescenta o tal carácter místico à mercadoria, ao agarrarem-se a várias ideias subjectivas de valor.