Mostrar mensagens com a etiqueta 7524. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta 7524. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Cinema e códigos de representação

Todos nós já fomos ao cinema, uns mais que outros, e todos nós vivenciamos o prazer proporcionado pelo cinema, que advém de questões relativas ao olhar. Quando se vai ao cinema o espectador é absorvido pelo filme, vivenciando a fascinate condição de voyeur, espreitando as vidas privadas das personagens.
Segundo Laura Mulvey, todo este processo do olhar está ligado a uma sociedade patriarcal, que induziu no cinema códigos de representação que dirigem a maneira como a figura masculina e feminina são abordadas. Deste modo, Mulvey no seu livro Prazer visual e cinema narrativo afirma que a narrativa clássica do cinema americano dirige o olhar do espectador a uma certa conformação ideológica. Mulvey argumenta que as convenções do cinema fazem uso do corpo feminino enquanto objeto erótico, estabelecendo uma perspectiva e um olhar masculino. Há uma tensão entre o desejo que o corpo feminino incita nos personagens e o desejo que este mesmo corpo desperta no espectador, mas por identificar-se com o protagonista do filme, o espectador compartilha com ele o prazer visual de olhar e possuir a mulher cuja imagem é refletida no filme.
Um dos meus filmes favoritos e que voltei a rever nestas ferias de Natal foi Vertigo de Alfred Hitchcock. No filme o detetive Scottie é contratado por um velho amigo para que este vigie e siga os passos da sua esposa Madeleine, que supostamente, sofre de distúrbios que a fazem ser atormentada por uma mulher morta há muito tempo. 
Durante o filme de Hitchcock a câmera segue sempre Scottie, no entanto há algumas exceções, por exemplo: quando o detetive vai a um restaurante para conhecer, de longe, Madeleine. A movimentação da câmera é bastante subtil, percorrendo a habitação, até que algo capta a sua atenção: este algo é Madeleine. A partir do momento em que a câmera a encontra,  esta aproxima-se da mulher, como um observador à espreita.
Dessa forma, a câmera separa-se do detetive, mas ainda assim compartilha com ele a fascinação por Madeleine, da mesma maneira que partilha com o espectador que assiste ao filme a mesma fascinação. 
Aqui já podemos constatar várias questões abordadas por Laura Mulvey tais como: o prazer de Scottie, que permanece como um voyeur, sempre observando a mulher, sem que ela saiba que está a ser observada; o narcisismo que provoca o espectador, já que este acaba por se identificar com o detetive; e o processo de fetichização que se inicia a imagem de Madeleine, começa a se configurar como uma imagem idealizada, quando a vemos caminhando em direção à câmera e depois observamos o seu perfil, temos a mesma certeza que Scottie, de que ela simboliza a beleza máxima. A personagem Madeleine aparece totalmente objetificada como uma imagem erótica e também como foco da obsessão sexual do detective Scottie.
Assim, o protagonista masculino da narrativa, assume o papel ativo de possuidor do olhar do espectador espreitando uma mulher que ele não conhece e que acaba por se tornar o foco do seu olhar. Ambos protagonista e espectador posicionam-se como voyeurs, o que significa que todos nós quando vamos ao cinema partilhamos a mesma fixação que os atores do filme, uma fixação imposta. Tudo isto me fez pensar e questionar os códigos de linguagem visual no cinema dominante, no qual, se pensarmos e analisarmos, predominam quase sempre formas de representação da mulher regidas por valores que a sociedade impõe, como afirma Laura Mulvey, uma sociedade patriarcal.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

A falsa publicidade


Cada vez mais, a tendência é a da satisfação das necessidades imediatas do indivíduo. A qualquer hora. A qualquer preço. Ao ler os textos de Max Horkheimer e Theodoro Adorno em A cultura industrial, relativos aos temas A falsa liberdade de escolha e falsa identidade e A publicidade, a mentira que parece mais verdade que a vida estupidamente monótona, recordei-me de um documentário da BBC produzido e dirigido por Adam Curtis, The century of the self.O documentário divide-se em quatro partes, sendo que a primeira a Máquina da felicidade fala de Edward Bernays, sobrinho de Freud.
Bernays foi a primeira pessoa a demonstrar às corporações americanas como estas poderiam fazer as pessoas quererem coisas que elas não precisassem ao associar os bens de consumo aos seus desejos inconscientes.
No decorrer do documentário surge um caso que eu desconhecia e que me surpreendeu. A corporação americana de tabaco estava a perder metade do seu mercado devido ao tabu contra as mulheres fumarem em público e decidiu pedir ajuda a Bernays para que este encontrasse uma maneira de quebrar esse tabu.
Deste modo, ele conseguiu convencer um grupo de debutantes a esconder cigarros nas suas roupas durante uma parada que decorria em New York. Estas deveriam a meio da parada acender os cigarros, proclamando que era um protesto ao que elas chamavam de “tochas da liberdade”. Foi assim que Edward Bernays conseguiu que tal acontecimento fosse publicado em todos os jornais dentro e fora dos Estados Unidos da America, associando os cigarros à ideia de desafiar o poder masculino. Assim, um símbolo, mulheres, jovens debutantes fumando um cigarro em público com a frase “tochas da liberdade”, fez com que qualquer um que acreditasse neste tipo de igualdade tivesse que apoiá-las porque eram “tochas da liberdade”.
A partir deste dia a venda de cigarros para as mulheres começou a crescer, e tudo isto com um simples acto simbólico.
Se refletirmos sobre este acontecimento, conseguimos perceber como é possível persuadir as massas a comportarem-se irracionalmente se associarmos os produtos aos seus desejos mais emocionais. A ideia de que fumar faz as mulheres mais livres é completamente irracional, o que significa que coisas irrelevantes podem tornar-se fortes símbolos emocionais de como queremos ser vistos pelos outros e essa ideia permanece até aos dias de hoje onde a tendência é: não precisamos daquela peça de roupa, mas compramos porque nos sentimos melhor com aquela peça; não precisamos daquele carro, mas compramos porque nos sentimos melhor com ele.
Como mencionado no documentário, o cidadão comum compensa as suas frustrações gastando o seu dinheiro em auto-gratificações (consumo de produtos).
Concluindo, vivemos imersos numa sociedade manipulada pela falsa publicidade que cria em nós uma necessidade consumista mascarada de desejos emocionais que nos são impostos.