terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Vida dentro de caixas

Estamos rodeados por caixas. Talvez nos deixámos rodear por elas. Vivemos constantemente dentro de áreas paralelepipédicas, feitas à nossa medida ou talvez às quais nos habituámos. Vivemos fechados, isolados, presos.
Na nossa simples rotina de acordar, tomar um duche, o pequeno-almoço e depois entrarmos no nosso carro ou em outro qualquer meio de transporte, em todos esses espaços são visíveis quatro estruturas à nossa volta, que nos cercam. Ficamos aconchegados a estes sólidos, parece que nos sentimos reconfortados, estando presos e escondidos de todos os outros. Trocamos as relações humanas, deixamos isso em função de tudo o que nos rodeia, de todos os objetos aos quais damos mais importância. Alienamo-nos com eles, deixamo-nos alienar por eles. Substituímo-nos por objetos.
Adorno e Horkheimer referem um pouco esta ideia no livro Dialética do Esclarecimento, onde criticam a arquitetura do pós-guerra, os complexos habitacionais denominados de “máquinas de habitar”, em que as construções atingem um nível de funcionalismo levado quase ao seu extremo, um hiperfuncionalismo. Tudo isto projeta um estilo de vida que parece perfeito, mas que só nos ocupa a mente com objetos e marcas, enquanto nos vamos cada vez mais achando estranhos, afastando-nos e escondendo-nos das pessoas que nos rodeiam.
Os objetos inventados entretêm-nos tão completamente, que esquecemos toda a pureza e toda a essência que também está perto de nós.


“Tempos Difíceis

De pé no meu escritório
Vejo para lá da janela no jardim a moita de sabugueiro
E há nela algo de rude e algo de negro
E recordo de repente o sabugueiro
Da minha infância em Augsburg.
Por uns instantes penso
Com toda a seriedade se devo ir até à mesa
Pegar nos óculos para ver
Mais uma vez as bagas negras nos ramos vermelhos.”

Bertolt Brecht


Deixamos de olhar a simplicidade, a Natureza, porque o nosso olhar foca-se inconscientemente no que nos produz um entretenimento mais facilitado.


“Ao sair de casa, gosta de ver árvores, porque numa sociedade onde os homens são «objetos de uso» as árvores ainda conservam algo de autónomo e por isso tranquilizante (Roberto Calasso)”.