domingo, 4 de janeiro de 2015

Isto é mais uma reflexão que uma conversa

Passei a tarde de domingo, após este óptimo Natal de 2014, a conversar com o meu tio.
Disse lhe que tinha estado a ler sobre Walter Benjamin, sobre o seu ensaio “A Obra de Arte na Era da Sua Reprodutibilidade Técnica”.
Achei pertinente falar-lhe sobre este assunto, uma vez que o meu tio é fotógrafo, e, por isso, comecei a interrogar-me acerca do seu trabalho. “O que representarão as suas fotografias? Serão obras de arte? Serão meros objectos tecnológicos ou meros objectos impressos?...”

No seu ensaio, “A Obra de Arte na Era da Sua Reprodutibilidade Técnica”, Walter Benjamin explica alguns aspectos decisivos pelos quais a fotografia afectou a arte tradicional. “A controvérsia travada no decurso do século XIX, entre a pintura e a fotografia relativamente ao valor artístico dos seus produtos, parece hoje dúbia e confusa.” (Benjamin, “A Obra de Arte na Era da Sua Reprodutibilidade Técnica”, 1955/1992).

Esta questão da reprodutibilidade aparece porque começa a ser difícil distinguir se a fotografia, tirada por uma máquina, está ao mesmo nível de um quadro, pintado com as próprias mãos. (Poderá a fotografia também ser considerada arte? Voltei eu a pensar... Todas aquelas fotografias tiradas pelo meu tio, que já tantas vezes as apreciei, aquelas paisagens incríveis, dos sítios mais fantásticos do mundo. Afinal de contas não foram, tecnicamente, tiradas pelo meu tio, mas sim pela máquina...)

Nas sociedades tradicionais, estar diante de uma obra de arte é estar diante de uma obra única, que só existe naquele lugar onde se encontra. “É, todavia, nessa existência única, e apenas aí, que se cumpre a história à qual, no decurso da sua existência, ela esteve submetida.” (Benjamin, “A Obra de Arte na Era da Sua Reprodutibilidade Técnica”, 1955/1992).

Em contrapartida, a reprodutibilidade técnica do objecto artístico acaba por perder a sua autenticidade, pois a possibilidade de fazer cópias do original e de transportá-las para diferentes lugares acaba por nos fazer reflectir sobre o próprio modo de entender a arte.
“... pode colocar o original em situações que nem o original consegue atingir. Sobretudo, ela torna-lhe possível o encontro com quem a aprende, seja sob a forma de fotografia, seja sob a forma de disco. A catedral abandona o seu lugar para ir ao encontro do seu registo num estúdio de um apreciador de arte, a obra coral, que foi executada ao ar livre ou numa sala, pode ser ouvida num quarto.” (Benjamin, “A Obra de Arte na Era da Sua Reprodutibilidade Técnica”, 1955/1992)

No entanto, Benjamin, procura também desenvolver uma nova perspectiva, que não está relacionado só com o facto de perceber se a fotografia é realmente arte ou não. Mas de compreender como a reprodução técnica transforma a própria obra de arte.

Então realmente pensei, a fotografia tornou-se numa ferramenta auxiliar para os pintores, por isso talvez não seja uma obra de arte.