Um indivíduo,
cidadão comum da sociedade moderna, chega a casa pós um dia de trabalho
exaustivo e procura um momento de sossego e descanso. Este substitui o fato por
roupa mais confortável e senta-se no sofá, ligando a televisão e passando de
canal em canal até encontrar um filme que lhe seja minimamente interessante.
Como um entusiasta cinematográfico, membro dos chamados cineclubes, e frequentador de encontros para discussão
cinematográfica, este conhece uma vasta colecção de filmes que considera “autênticas
obras de arte” e seus realizadores como “indivíduos fora de série”, até mesmo “génios”.
A escolha do filme que vai ver depende estritamente do conhecimento prévio que
possui das obras que já viu.
Muitos destes
filmes, são pouco conhecidos e normalmente com pouca cobertura demográfica.
Filmes considerados “alternativos” são objectos de temas altamente radicais,
outros de temas humanísticos e que desafiam o pensamento humano através de
técnicas e elementos muito subtis. Este tipo de cinema faz frente ao cinema
mais actual, dedicado exclusivamente ao entretenimento e maior cobertura
possível das massas. Os filmes dispostos nos posters de exibição às entradas
das salas de cinema são de géneros variados, indo desde acção, a policiais,
histórias românticas e comédias. No entanto, estes filmes servem unicamente o
propósito de entreter o indivíduo e em outra vertente, fazem parte de um grande
negócio. Estes não colocam-lhe questões que desafiam as concepções e princípios
pelos quais o psicológico humano se orienta no seu quotidiano.
É um facto que
o filme é capaz de submergir o indivíduo no mundo que projecta. A linguagem
nele presente tem uma correspondência na realidade, razão pela qual o público é
capaz de se rever no filme e subconscientemente “viver” na acção do filme e nos
espaços que este cria; o que é uma forma de entretenimento passa a ser uma
forma de restricção do consciente humano; rápida, subtil e eficaz. Isto
aplica-se também ao chamado cinema alternativo, que apesar de se contrapor ao
cinema demograficamente dominante, fecha o indivíduo na dimensão conceptual e
psíquica que o filme apresenta. Aliás, estes filmes são capazes de causar
atrofio completo da mente do indivíduo. Filmes os quais apresentam histórias
estranhas, obscuras e muitas vezes sem sentido ou conclusão definitiva
apoderam-se do indivíduo provocando o questionamento dos seus ideais, das suas
crenças e da sua noção que tem do mundo.
Estas obras certamente exercitam a actividade de
pensamento e alargam os horizontes humanos, mas acabam por fazer exactamente o
que os filmes de puro entretenimento fazem: restringem o indivíduo numa
dimensão análoga à da realidade, diferenciando destes pelo facto de colocarem
situações e questões que põem em causa a condição do indivíduo e da sua posição
perante a sociedade e o mundo.
Referência de base:
> MULVEY, Laura, O prazer visual e o cinema narrativo, II - O prazer em forma em olhar a forma humana, conteúdos seleccionados, 1975
> MULVEY, Laura, O prazer visual e o cinema narrativo, II - O prazer em forma em olhar a forma humana, conteúdos seleccionados, 1975