terça-feira, 6 de janeiro de 2015

#2 O entretenimento cinematográfico como "restricção" do indivíduo





Um indivíduo, cidadão comum da sociedade moderna, chega a casa pós um dia de trabalho exaustivo e procura um momento de sossego e descanso. Este substitui o fato por roupa mais confortável e senta-se no sofá, ligando a televisão e passando de canal em canal até encontrar um filme que lhe seja minimamente interessante. Como um entusiasta cinematográfico, membro dos chamados cineclubes, e frequentador de encontros para discussão cinematográfica, este conhece uma vasta colecção de filmes que considera “autênticas obras de arte” e seus realizadores como “indivíduos fora de série”, até mesmo “génios”. A escolha do filme que vai ver depende estritamente do conhecimento prévio que possui das obras que já viu.

Muitos destes filmes, são pouco conhecidos e normalmente com pouca cobertura demográfica. Filmes considerados “alternativos” são objectos de temas altamente radicais, outros de temas humanísticos e que desafiam o pensamento humano através de técnicas e elementos muito subtis. Este tipo de cinema faz frente ao cinema mais actual, dedicado exclusivamente ao entretenimento e maior cobertura possível das massas. Os filmes dispostos nos posters de exibição às entradas das salas de cinema são de géneros variados, indo desde acção, a policiais, histórias românticas e comédias. No entanto, estes filmes servem unicamente o propósito de entreter o indivíduo e em outra vertente, fazem parte de um grande negócio. Estes não colocam-lhe questões que desafiam as concepções e princípios pelos quais o psicológico humano se orienta no seu quotidiano.

É um facto que o filme é capaz de submergir o indivíduo no mundo que projecta. A linguagem nele presente tem uma correspondência na realidade, razão pela qual o público é capaz de se rever no filme e subconscientemente “viver” na acção do filme e nos espaços que este cria; o que é uma forma de entretenimento passa a ser uma forma de restricção do consciente humano; rápida, subtil e eficaz. Isto aplica-se também ao chamado cinema alternativo, que apesar de se contrapor ao cinema demograficamente dominante, fecha o indivíduo na dimensão conceptual e psíquica que o filme apresenta. Aliás, estes filmes são capazes de causar atrofio completo da mente do indivíduo. Filmes os quais apresentam histórias estranhas, obscuras e muitas vezes sem sentido ou conclusão definitiva apoderam-se do indivíduo provocando o questionamento dos seus ideais, das suas crenças e da sua noção que tem do mundo.

Estas obras certamente exercitam a actividade de pensamento e alargam os horizontes humanos, mas acabam por fazer exactamente o que os filmes de puro entretenimento fazem: restringem o indivíduo numa dimensão análoga à da realidade, diferenciando destes pelo facto de colocarem situações e questões que põem em causa a condição do indivíduo e da sua posição perante a sociedade e o mundo.

Referência de base:
> MULVEY, Laura, O prazer visual e o cinema narrativo, II - O prazer em forma em olhar a forma humana, conteúdos seleccionados, 1975