sábado, 3 de janeiro de 2015

Sê tu mesma! (dizem as más línguas)



“As mulheres de nossos dias estão prestes a destruir o mito do “eterno feminino”: a donzela ingênua, a virgem profissional, a mulher que valoriza o preço do coquetismo, a caçadora de maridos, a mãe absorvente, a fragilidade erguida como escudo contra a agressão masculina. Elas começam a afirmar a sua independência ante o homem; não sem dificuldades e angústias porque, educadas por mulheres num gineceu socialmente admitido, seu destino normal seria o casamento que as transformaria em objecto da supremacia masculina.”  -  Simone de Beauvoir

Desde 1949 (data em que a autora publicara o livro) que nós mulheres queremos ser independentes relativamente ao sexo oposto e estar finalmente livres dos estereótipos adjacentes. O desejo é tão tão grande mas é tão pouco evidente na maioria das publicações dos media.

Ora bem, estou na fila do supermercado à espera de ser atendida, viro-me para a direita e tenho o rosto da Cameron Diaz com a frase a rosa choque “Como ser a que eles querem”. Bastante aborrecida com o assunto viro-me para a esquerda e para minha surpresa temos o corpo inteiro da Irina Shayk em biquíni seguido pelo seguinte aviso: “Nós podemos converter-te numa deusa sexual”.

Sinceramente não percebo várias aspectos neste assunto. Percebo perfeitamente o título de Simone de Beauvoir - O segundo Sexo. Mas quem tem alguma dúvida? Obviamente os homens serão o primeiro, aquele a qual o segundo sexo às suas necessidades tem de responder - nada mais do que o normal, nada mais absurdo.

No entanto, gostaria de perceber várias coisas. Porque é que estas revistas ainda continuam no mercado? Há quem as compre? Para onde terá ido esse desejo de independência? Porque quem compra certamente não as compra para as refutar, infelizmente. Preocupa-me que a maioria do público que adquire estas revistas sejam mulheres, preocupa-me que as mesmas não vejam com o que estão a pactuar, preocupa-me que não percebam que estão a contribuir para uma perspectiva em que as mulheres são meros objetos sexuais, destinadas a fornecer prazer ao sexo masculino, aquele que parece ter sido o escolhido.


Muito gostaria eu que a destruição do mito do “eterno feminino” fosse mais rápida do que efetivamente é. Tal só depende de nós: enquanto acharmos que ser mulher é “ser assim e assado para ele”, então parece-me que dificilmente chegaremos lá.