segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Cinema e códigos de representação

Todos nós já fomos ao cinema, uns mais que outros, e todos nós vivenciamos o prazer proporcionado pelo cinema, que advém de questões relativas ao olhar. Quando se vai ao cinema o espectador é absorvido pelo filme, vivenciando a fascinate condição de voyeur, espreitando as vidas privadas das personagens.
Segundo Laura Mulvey, todo este processo do olhar está ligado a uma sociedade patriarcal, que induziu no cinema códigos de representação que dirigem a maneira como a figura masculina e feminina são abordadas. Deste modo, Mulvey no seu livro Prazer visual e cinema narrativo afirma que a narrativa clássica do cinema americano dirige o olhar do espectador a uma certa conformação ideológica. Mulvey argumenta que as convenções do cinema fazem uso do corpo feminino enquanto objeto erótico, estabelecendo uma perspectiva e um olhar masculino. Há uma tensão entre o desejo que o corpo feminino incita nos personagens e o desejo que este mesmo corpo desperta no espectador, mas por identificar-se com o protagonista do filme, o espectador compartilha com ele o prazer visual de olhar e possuir a mulher cuja imagem é refletida no filme.
Um dos meus filmes favoritos e que voltei a rever nestas ferias de Natal foi Vertigo de Alfred Hitchcock. No filme o detetive Scottie é contratado por um velho amigo para que este vigie e siga os passos da sua esposa Madeleine, que supostamente, sofre de distúrbios que a fazem ser atormentada por uma mulher morta há muito tempo. 
Durante o filme de Hitchcock a câmera segue sempre Scottie, no entanto há algumas exceções, por exemplo: quando o detetive vai a um restaurante para conhecer, de longe, Madeleine. A movimentação da câmera é bastante subtil, percorrendo a habitação, até que algo capta a sua atenção: este algo é Madeleine. A partir do momento em que a câmera a encontra,  esta aproxima-se da mulher, como um observador à espreita.
Dessa forma, a câmera separa-se do detetive, mas ainda assim compartilha com ele a fascinação por Madeleine, da mesma maneira que partilha com o espectador que assiste ao filme a mesma fascinação. 
Aqui já podemos constatar várias questões abordadas por Laura Mulvey tais como: o prazer de Scottie, que permanece como um voyeur, sempre observando a mulher, sem que ela saiba que está a ser observada; o narcisismo que provoca o espectador, já que este acaba por se identificar com o detetive; e o processo de fetichização que se inicia a imagem de Madeleine, começa a se configurar como uma imagem idealizada, quando a vemos caminhando em direção à câmera e depois observamos o seu perfil, temos a mesma certeza que Scottie, de que ela simboliza a beleza máxima. A personagem Madeleine aparece totalmente objetificada como uma imagem erótica e também como foco da obsessão sexual do detective Scottie.
Assim, o protagonista masculino da narrativa, assume o papel ativo de possuidor do olhar do espectador espreitando uma mulher que ele não conhece e que acaba por se tornar o foco do seu olhar. Ambos protagonista e espectador posicionam-se como voyeurs, o que significa que todos nós quando vamos ao cinema partilhamos a mesma fixação que os atores do filme, uma fixação imposta. Tudo isto me fez pensar e questionar os códigos de linguagem visual no cinema dominante, no qual, se pensarmos e analisarmos, predominam quase sempre formas de representação da mulher regidas por valores que a sociedade impõe, como afirma Laura Mulvey, uma sociedade patriarcal.