Mais do que nunca, o cinema faz parte do nosso quotidiano,
de tal modo que não pensamos nas suas características e no que o torna
realmente único e inovador.
O cinema marcou a diferença por vários motivos, entre os
quais ser a primeira forma de arte que implica a utilização de um dispositivo
para ser apreciada. É necessária, além da obra em si, uma maneira de a
reproduzir. Nunca antes isso tinha acontecido, uma vez que bastava estar frente
a frente com a obra para a poder apreciar, sem quaisquer recursos que não os
nossos próprios sentidos.
Além desta necessidade, já assente num considerável
progresso tecnológico, há ainda outra particularidade: há uma “perda de pessoas”
quando se dá a passagem do teatro para o cinema. No teatro, o actor está em
cena, é visto em tempo real pelo público e encontra-se dentro do mesmo espaço
que este. Consegue então adaptar a sua interpretação às reacções do público,
criando desde logo uma ligação muito mais forte. Além disso, o actor, de modo a
representar de forma satisfatória, deve ter um mínimo de entendimento da
personagem que está a representar. No cinema estas características alteram-se.
Embora o actor de cinema esteja realmente presente na filmagem, nunca vai estar
presente na exibição do filme. O que vai ser mostrado são as imagens que foram
gravadas, e nunca a pessoa em si. Deixa de haver também a necessidade de o
actor de cinema compreender a fundo a sua personagem: basta-lhe representar da
maneira mais conveniente determinadas cenas, sem ordem cronológica nem sentido
imediato. Nada disto é necessário porque grande parte do valor do filme vai
estar assente na maneira como este vai ser editado, sendo que esta edição
transmite muitas vezes elementos mais importantes do que a qualidade da
representação do actor transmitiria.
Com a sétima arte acabamos também por ser de certo modo
substituídos pela máquina. Somos inevitavelmente substituídos pela câmara que
grava o filme, dentro da qual não estamos nem poderíamos nunca estar. A câmara
passa a estar no lugar do olho humano, passa a ser o que realmente capta a
acção, deixando-nos uma versão filtrada, segmentada e editada da realidade que
o filme pretende representar.
Claro exemplo de tudo isto são os grandes filmes comerciais
actuais, que movem grandes quantidades de dinheiro. São filmes que se apoiam na
edição de uma forma bastante vincada, ilustrando então bastante bem esta perda,
tanto em relação à falta de entendimento da personagem como em relação à
ligação com o público. Também é comum que uma espantosa edição consiga esconder
falta de profundidade ou relevância do tema do filme e mesmo assim não afectar
muito o lucro obtido.
O cinema mostra então ser inovador a vários níveis, como uma
arte mais apoiada no progresso tecnológico, com um valor de uso potencial
futuro, uma vez que o filme é sempre exibido no futuro, após a sua edição, e,
acima de tudo, como uma arte emancipada, que perde a tradicional dimensão
ritual.