quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Género Musical ou Identidade?

Fará a música que ouvimos alguma diferença no nosso carácter? Tenho vindo a reflectir sobre este assunto, que digo desde já, está interligado com o amplo preconceito causado por estereótipos a que todos estamos sujeitos. 
Julgados, apedrejados pela sociedade, onde estão inseridos os próprios elementos familiares, parece descabido, mas na verdade não é.
Se ela ouve aquilo, se ele ouve isto, parece que a música também se apresenta como barreira a um processo de comunicação que está inerente à nossa condição, à nossa condição de ser que apesar de alienado insiste em não viver separado de tudo e todos.

Tomando o exemplo dos fãs de um novo estilo musical, desta maneira o classifico pois assume-se como uma mudança e desajuste à nossa cultura portuguesa, apesar de já trazer consigo a história de um país, a Coreia do Sul, falo então, da cultura popular sul coreana concretizada numa única palavra K-Pop (A letra "K" que advém do Inglês "Korea" juntamente com a palavra abreviada "Pop" - "Popular"), é onde se insere também o seu estilo de música próprio, tal como nós temos o Fado e, agora mais recentemente, o Cante Alentejano, como património cultural.

Nós, seres humanos, temos tendência para temer o desconhecido, repelir o que nos é estranho, o que está separado de nós, o que nos rodeia, a surpresa no primeiro instante é inevitável pois o medo daquilo que não adquirimos é físico e sensível, inexplicavelmente involuntário, e provoca-nos as mais variadas sensações, porque a arbitrariedade que nos está implícita torna tudo imprevisível, e isso devia fascinar-nos, mas o contrário é normalmente a regra. Esse medo torna-se rapidamente em preconceito que por sua vez advém de estereótipos que se impõem pela sua credibilidade e não pela sua verdadeira índole, o que faz com que o racismo seja completamente ridículo.

Racismo, é um termo forte sem dúvida, mas é extremamente aplicável ao exemplo que dei anteriormente, os fãs deste tipo de música são verdadeiros guerreiros em campo, trazer para o seio familiar este tipo de cultura totalmente distinta da nossa, tanto no mapa como na música, chega a ser doloroso, eu diria até dramático, se é que me permite o exagero, a aceitação não é de todo fácil ou bem sucedida, o impacto é grande e muitas das vezes leva à própria descriminação familiar; para justificar tal afirmação vou tomar como exemplo a minha própria situação pessoal, «gostar de ouvir músicas de olhos em bico "é lixado"» - peço desde já desculpas pelo infeliz termo utilizado, mas não tenho qualquer outra palavra para o descrever, a não ser uma de calibre mais elevado, mas não quero causar distúrbios e muito menos escrever qualquer tipo de injúria - começando pelo termo "olhos-em-bico" que se torna generalizado a todos os povos asiáticos, já por si depreciativo quando dito com uma expressão de repulsa ainda se torna mais notória a dificuldade na aceitação de uma realidade, que também está presente no mundo em que vivemos, ou pelo menos está assinalada no mapa. Para além da panóplia de alcunhas atribuídas a um povo que apresenta qualidades distintas de tantos outros povos asiáticos, existe também a barreira da linguagem, essa sim, oferece uma resistência tremenda, enquanto que a anterior sendo ignorada é facilmente ultrapassada - "O quê? Tu ouves isto? Não se percebe nada do que eles dizem..." - eu acho extremamente engraçado este tipo de comentários, porque numa primeira análise, sim, eu oiço músicas sobre as quais não tenho qualquer entendimento acerca do dialecto nelas presente, mas o que faz com que esse tipo de constatação, mais uma vez repulsiva, não seja um ataque válido, é que na música, tal como na imagem, estão inseridas múltiplas mensagens, muitas das vezes as músicas aparecem também acompanhadas com os seus respectivos conteúdos visuais, os tele-discos, os famosos videoclips, o que pressupõe uma interpretação variada, não só ao nível do entendimento linguístico como da compreensão de sonoridades e das próprias sensações causadas por determinado aglomerar de sons, repetidos ao longo de uma média de 3:00 e 5:00 minutos. O instrumental convive em separado com a letra, são duas mensagens diferentes, apesar da última esclarecer a primeira. Provando assim o quão infrutífero é o esforço para proporcionar o afastamento dos nossos sentidos à nossa compreensão. A barreira linguística é o argumento mais forte, mas os seus alicerces não são seguros. Quando éramos pequenos era fácil movermos-nos ao som de qualquer coisa que se parecesse com um êxito musical, fazíamos questão de perceber a letra? Não, estávamos simplesmente a expressar o que aquele som nos fazia sentir, alegria. É isso que eu sinto em relação ao K-Pop, sou da opinião que a música deve ser sentida, compreendida através dos sentidos e não do entendimento científico-linguístico que está presente na letra de determinada canção.

O K-Pop, tem várias dinâmicas, cores, estilos, mas o facto de ser conteúdo asiático, para muita da gente, já é prejudicial, muitas das vezes, a pressão é tão exacerbada que o indivíduo desiste do seu próprio sonho e da sua paixão, do ritmo da música que lhe corre nas veias, para ceder aos caprichos de uma sociedade que se baseia na boa publicidade e não na enriquecedora diferença cultural que se estende a todos nós.