quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Envoyez-moi un Souvenir!!

Envoyez-moi un Souvenir!!


O souvenir turístico está presente na grande maioria dos museus e em outras instituições culturais, constituindo um meio de divulgação do respetivo acervos, pois em muitos casos são uma reprodução das obras de artes existentes nesses locais. Assim, surge na sociedade atual como um produto da indústria cultural, refletindo a profunda transformação que tem ocorrido na obra de arte em consequência da sua reprodutibilidade técnica e apresenta-se como um produto em que o objeto artístico deixa de ser um exclusivo de alguns, para se tornar acessível a um grande número de pessoas.
Na reprodutibilidade das obras de arte tem lugar a perda da respetiva “aura”, tal como defende Walter Benjamin em “A Obra de Arte na Era da Sua Reprodutibilidade Técnica”, dado que “mesmo na reprodução mais perfeita falta uma coisa: o aqui e agora da obra de arte – a sua existência única no lugar em que se encontra”.

No entanto, os souvenires não deixam de ser um incentivo para a visualização das obras de arte dado que promovem a sua divulgação, pois enquanto produtos de fácil acesso a todos os turistas, pretendem reproduzir as obras mais emblemáticas de determinados artistas. Permitem a ampla divulgação das obras de arte, mas não se sobrepõem às mesmas pois os turistas ao adquirirem-nas, pretendem uma lembrança daquilo que visualizaram, não substituindo a visita obrigatória àquele local para ver aquelas obras.


Tal como é referido por Walter Benjamin, a reprodução diferencia-se da obra de arte, pois enquanto nesta surgem intimamente ligados “o caráter único e a durabilidade”, naquela está presente a “fugacidade e a repetitividade”, assim, embora os souvenires turísticos se apresentem como uma forma de consumo da reprodução da obra de arte, desempenham um papel fundamental na sua divulgação.

Walter Benjamin: a questão da reprodutibilidade técnica da obra de arte


A comercialização de imitações de obras de arte, famosas e sobretudo de grande valor, é algo comum desde que me lembro. Já pude ver a Mona Lisa de Leonardo Da Vinci e A Noite Estrelada de Vincent van Gogh algumas vezes ao vivo, apesar de nunca ter ir aos respectivos museus onde se encontram as obras originais. No entanto, não posso dizer que tive “o prazer” ou que “adorei” ver aqueles quadros, porque, na verdade, são apenas imitações, que podem estar bastante idênticos aos originais, mas sem qualquer história ou valor artístico. 
De acordo com Walter Benjamin, a obra de arte sempre foi reprodutível. Na antiguidade, elementos artísticos já existentes eram reproduzidos por discentes para aprenderem ou por mestres para divulgarem as obras ou até mesmo para comercialização. Com o avançar dos séculos, a reprodutibilidade das coisas teve sempre tendência para aumentar, e foi com aparecimento da fotografia, no século XIX, que a reprodução das artes gráficas passou a ser realizada através de uma objectiva e do olho humano, não sendo mais necessário a intervenção da mão.
A fotografia permitia que todas as reproduções fossem muito mais perfeitas e próximas da
realidade do que qualquer outra imitação jamais realizada. Mas apesar de toda a
inovação que a fotografia trouxe ao mundo da arte, faltava-lhe qualquer coisa, tal como a
todas as reproduções feitas anteriormente. Ao contrário de uma peça original, que é única
por muito que haja a possibilidade de ter várias imitações, uma reprodução, que pode ser
muito bem feita, nunca terá a mesma legitimidade. É este aspecto que Walter Benjamin
esclarece com este tema.
Todas as peças originais têm algo único que as caracteriza e que não é possível ser
captado nem transmitido para mais nenhuma reprodução. Benjamin refere-se a uma aura,
algo que apenas existe nas peças originais graças ao “aqui” e “agora” ou graças à sua
autenticidade. A aura que existia nas peças desaparece assim que elas são reproduzidas,
pois não é transmissível. Por essa razão, quando alguém está perante a obra original
sente algo diferente ao estar na sua presença do que se estiver perante uma imitação

dessa mesma obra. A obra original tem algo que a outra não tem: singularidade - aura. 

sábado, 27 de dezembro de 2014

O Ópio do Povo

Tendo em conta que na sociedade dos tempos de hoje, mal uma criança nasce, é-lhe instantaneamente incutido o conceito de fama e poder, porque não debruçar-me um pouco sobre isso?
Pois bem, existem inúmeras maneiras de se tornar conhecido: umas mais trabalhosas, outras mais nobres e claro, outras mais fáceis, por exemplo, participar num reality show. Entra-se para uma casa com um grupo de pessoas que não se conhece de lado nenhum, finge-se criar laços afectivos com os outros concorrentes, e quando sai da casa começa a fazer presenças em discotecas, apresentar programas sobre outros reality shows que se vão sucedendo uns aos outros. Vida feita! Ou talvez não...
A fórmula é simples, tanto para quem participa como para quem assiste. Uma parte ganha a tão desejada fama, a outra, que neste caso está do lado de fora do caixote, esquece os problemas diários por umas horas e diverte-se “espiando” a vida dos que se sujeitam a isso.
Mas como todos os programas correm o risco de entrar em monotonia, é necessário que haja uma espécie de “novela” que faça com que os espectadores, inconscientemente, comentem os sucedidos no café, na escola ou inclusive no trabalho. Para isso a equipa de produção do programa manipula os participantes de modo a darem espectáculo, incentivando triângulos amorosos e até cenas de “quase” agressão, peripécias estas que presenciam o jantar de inúmeras famílias, pois os canais televisivos insistem em passar tais programas geralmente às refeições e horários nobres.
É uma novela com pessoas, supostamente, reais que faz com que o público se envolva de tal maneira que chega ao ponto de gastar rios de dinheiro com o único objectivo de expulsar este ou aquele concorrente e depois queixam-se que não há dinheiro para por pão na mesa. Os principais espectadores deste tipo de programas caem no grupo de adolescentes que acham que por tentar manter aquele “tipo giro” do programa, um dia vão chegar a conhecê-lo. No  entanto, a única coisa que se dá a conhecer é a conta telefónica ao fim do mês, com valores exorbitantes de chamadas com valores acrescentados. Mas se por um lado são os progenitores destes jovens que sofrem, também eles são os principais responsáveis por permitir que este tipo de programas entrem em sua casa, pois existem inúmeras séries disponíveis e à mão de qualquer um, bem mais educativas.
Como já se percebeu os programas da “vida real” são autênticos monopólios e o produto mais visível desse monopólio são os antigos concorrentes. Graças a estes programas há apresentadores de televisão que o único ponto que têm no seu curriculum, para além da escolaridade básica, é o facto de terem participado num Big Brother ou Secret Story.
Até que ponto vale a pena andar a “queimar pestanas” uma vida inteira quando se pode simplesmente concorrer num destes programas e ter um trabalho? Qualquer estudante desmotiva ao pensar um pouco nisto.
Mas, por outro lado, o que vale mais? Ter dinheiro e fama, ou ser feliz e ter dignidade? Infelizmente nem toda a sociedade escolhe o mesmo lado.

Se Marx fosse vivo talvez mudasse a sua opinião e dissesse que, afinal, o ópio do povo são os reality shows e não a religião.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Azúcar y capitalismo


Cito a Karl Marx:
Las mas avanzadas fuentes de salud, gracias a una misteriosa distorsión, se transforman fuentes de penuria”.

La humanidad evoluciono millares de años nutriéndose de los alimentos que le ofrecía la naturaleza. Hasta que nació la agricultura moderna, y se fueron desenvolviendo nuevos procedimientos (cultura). Este fue un momento crucial, hace menos de diez mil años, en el que la mercaduria paso a convertirse en una gran industria.
Hace tan solo mil años, consiguió extraerse el azúcar de la naturaleza, y lo que era un alimento sano y necesario para nuestro cuerpo, la glucosa, paso a ser fuente de grandes enfermedades: obesidades, diabetes y enfermedades crónicas. Por no hablar de su oscuro papel dentro de la colonización de américa del sur, en las comunidades indígenas, utilizada como fuente de enfermedades nuevas y herramienta para la esclavitud de sus habitantes.
Aproximadamente hace 400 años se universalizo su consumo, para que este alimento sea bonito, suelto y blanco a ojos del consumidor, es tratado por productos químicos, convertido en un mineral blanco, pierde proteínas y demás nutrientes. La reacción que esta produce al organismo es la de una super acidez que desmineraliza el organismo trayendole serios problemas. De esta forma, nos convierte, calmándonos a dosis, en esclavos de la sustancia.
Todo el sistema contribuye a su excesivo consumo desde la niñez, anuncios televisivos, atractivos productos...
Dentro de la segmentación de mercado, se diseñan millones de productos que ayudan a no poder escapar de este veneno. Solo basta fijarse en las etiquetas de ingredientes que contienen los productos, para darte cuenta que la gran mayoría contiene azúcar blanco.
Este tema es extenso en relación a salud y políticas de control dentro del sistema capitalista.
Con este cuerpo dulce como “alimento” estrella, se produce una serie de asociaciones desde el valor de uso que tiene un alimento, hasta toda su manipulación al convertirse en mercaduria y consumirse en nuestras mesas.
Otro ejemplo y también considerado un alimento de primera necesidad ,sería el proceso de la harina de trigo. En el, se le extraen, vitaminas y nutrientes para convertirla en la famosa harina blanca que encontramos en cualquier mercado común, para después esas carencias creadas suplirlas de otras maneras. Asi, la segmentación de productos dentro de la industria alimenticia, ayudan a nuestra insalubridad y consumo excesivo. Muchas veces esta industria estrechamente relacionada con la poderosa industria farmacéutica, donde encontrar soluciones a nuestras enfermedades y sospechosas carencias.
La alimentación es una herramienta muy poderosa con la que adiestrar nuestros cuerpos y a la que pocas personas prestan atención. Desde una antropología alimentaria se puede observar la importancia que tiene este factor en nuestras sociedades, de cómo, cocinamos nuestra naturaleza.

Democratización de la obra de arte


Walter Benjamin advertía ya en el año 1936 de la perdida de aura de la obra de arte, esto quería decir, que perdía, con ello, su carácter de singularidad, en el sentido de experiencia irrepetible. Con consecuencia, también perdía, el sentido de ritualidad con la que se creaba. De esta manera, se transformaba su valor expositivo y por tanto, también su función dentro de la sociedad.
Ya no se consideraba única, ya que existía la posibilidad de ser reproducida.
Esto llevaba a la obra de arte a situarse en el sistema de una forma más democrática, a la que cualquier individuo podía tener acceso. Por tanto, de esta forma, podría decirse que se politizaba.
Al ya no poder crear aspectos/significados culturales específicos y con la pérdida de su sentido/carácter ritual la producción artística pasaba a tener un valor político.
La tan temprana premonición De Walter Benjamin nos advertía de nuestra cultura de masas y era de la imagen, en la que hoy vivimos inmersos. De esta forma, la función y sentido de la obra de arte, es otra. Tiene en sí, un carácter más diseñado, como es el caso, al que se refiere el autor, el cine.
El diagnostico de Benjamin se cumple. La obra de arte hoy en día, esta más al servicio de la política, en su mirada masiva, ya que ha perdido su función autónoma que le otorgaba su historicidad de ritual. Relacionada a esta cuestión el arte, pierde en cierto modo, lo cultural, para convertirse en industria, un paso más, que entiendo que es el concepto tratado posteriormente por Adorno.
Adorno, situá en el mismo lugar la postura del arte político (vanguardias) y la pura industria Cultural (sociedad de masas), tan solo son una modalidad mercantil del mismo violento sistema capitalista.
Lo que para Benjamin seria una lucha de clases, la postura de Adorno es más pesimista y apunta a a la extinción del arte en el sXX por su falta de individualidad, ya que cualquier critica, arte político, es absorbido por la industria cultural, convertido así en discurso fetiche.
Este me parece un debate interesante, en relación a luchas de resistencia que se neutralizan e incorporan a discusiones hegemonicas denunciadas opositoras: ¿Hasta que punto los propios intelectuales, críticos y artistas en su circulo cerrado de discusión no delimitan sus propios intereses revolucionarios? Que relación debería existir entre praxis y discurso? Si todxs somos iguales frente al sistema del arte queda este en manos del poder? Hasta donde apostar por la forma?

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

O dinheiro compra aquilo que tem preço, não o que tem valo


Imaginar uma falsificação perfeita de um quadro considerado uma obra de arte, onde nenhuma diferença pode ser apontada, e, nenhum perito consegue avaliar a distinção entre o verdadeiro e o falso, pode ter um preço mas será que chega a ter valor?

A obra original e a cópia "Interior"(1912), de Frank Weston Benson  em exibição em simultâneo  


 Apesar de a nível estético não ser possível destacar nenhuma diferença, a obra original detém propriedades que a falsificação nunca conseguirá alcançar. O original poderá ser produto de um artista ou período, que o tornaram revolucionário enquanto obra, enquanto que a falsificação, no máximo, poderá ser revolucionária enquanto cópia, sem qualquer valor para além desse. De certa forma, a existência dessa diferença entre ambos é óbvia. 

 Afirmar que nesta sociedade capitalista tudo tem um preço, e que muitas pessoas lhe ligam exclusivamente, deixando o valor de parte, pode ser considerada uma generalização um tanto arrojada, mas se admitirmos que realmente acontece, e que o mundo das artes não é excepção, então um quadro perde o seu valor e ganha um preço. No caso de uma falsificação, esta adquire o valor da obra original, apesar de hipoteticamente não deter valor nenhum, para além do monetário; E em contra partida a obra original apesar de deter valor, é desvalorizada, pois é igualada em termos monetários à falsificação. É claro que um original nunca poderá ser igualado a uma cópia em termos de valor, apesar de monetariamente uma falsificação chegar a valer o mesmo que o original.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

1 notificação

O conceito pinteresco do Instagram até é engraçado não fossem as pessoas que o habitam e enchem de lixo visual numa tentativa de demonstrar que a sua vida é interessante porque comem sushi duas vezes por semana. Pois bem meus caros, antigo como o sushi só mesmo a estupidez que, lá está, é infinita. A intenção é boa, uma plataforma de partilha de fotografias de pessoas de todo o mundo até soa interessante, o problema é que, mais uma vez, o comum mortal ignora uma oportunidade para, ao invés, tirar selfies, aquele rasto de decadência e futilidade que a minha geração vai deixar.
Ora, para exemplificar este argumento basta-me abrir o Instagram e lá está, primeiro post, uma frase inspiradora. Inspiradora como quem diz, um daqueles motes de vida que estão em posters pirosos colocados nas paredes de teenagers ao lado de fotografias do Justin Bieber. "Estou a estudar design", pensei eu, "Que desperdício". De facto o Instagram podia ser muita coisa mas o mau gosto e o amor próprio vencem sempre. Amor a si e amor às coisas, slogan desta aplicação fantástica. Imediatamente a seguir o meu segundo favorito, “new in” - descreve a fotografia de um pilha de roupa em cima de uma cama. Isto leva-me a pensar na questão mais importante, não a do narcisismo e a da futilidade inerentes a esta aplicação, mas a do consumismo e afirmação de poder monetário que muitos decidem exaltar nesta app.
Tendo em conta que vivemos numa sociedade capitalista e materialista, de facto, não é surpreendente que utilizemos qualquer oportunidade para demonstrar os bens que cada um, de acordo com o seu poder monetário, consome, caindo assim no ridículo de utilizar uma das grandes invenções do Homem para “imortalizar” a nossa própria existência (através das selfies) e a dos objetos que tanto adoramos.

Resta-me concluir que o ser humano é, de facto, um ser extraordinário.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Alienação fetichista

Contemplamos uma sociedade caracterizada pelas novas tecnologias, arrastada por um desejo consumista tão extremo que por vezes pode existir um vínculo maior com um determinado objecto do que com outras pessoas. Somos levados pelo fetichismo (adoração de objectos materiais), permitindo que certos produtos confiram uma valorização pessoal ao indivíduo que os possui - “Com a valorização do mundo das coisas aumenta em proporção directa a desvalorização do mundo dos homens.”, Karl Marx, 1993: 159. Somos nós mesmos, os criadores, que são transformados em mera mercadoria, trabalhando em proveito do objecto, sendo dominados pelo nosso próprio fabrico e pelo Mundo das Coisas, e esquecendo o nosso próprio Mundo (dos Homens). Com esta transformação de materiais naturais, afastamo-nos cada vez mais da Natureza, ascendendo a um mundo materialista e de cobiça. Mensagens subliminares levam-nos a acreditar que precisamos de um determinado produto, sendo apresentado e idealizado como uma forma de realização pessoal, como uma necessidade vital. A construção em massa deste produto leva a um uso “útil” da Natureza, retirando-a do seu espaço e desvalorizando-a, em prol de “instrumentos sociais”. Isto porque fomos dominados pela publicidade, e mesmo compreendendo que existe todo um mercado capitalista à nossa volta, alimentamo-lo e saciamos as nossas vontades “pessoais”, impostas por uma sociedade consumista. A alienação que nos afasta de nós mesmos e dos que nos rodeiam e nos leva a criar relações com objectos torna a Natureza cada vez mais estranha e distante do que a cultura consumista. A felicidade material leva a um desequilíbrio que nos torna capazes de trabalhar e “ganhar” dinheiro para comprar um certo produto, e ignorar as relações humanas. Chegámos a tal ponto, que uma moda e determinado produto definem a personalidade do seu proprietário. Que uma pessoa é capaz de se dirigir a um estabelecimento (como um café, restaurante, etc.) com um grupo de amigos, e passar a maior parte do tempo “colada” ao telemóvel, navegando pelo facebook, instagram, twitter, etc., em vez de conversar, e tal acção seja tida como algo normal. Somos dominados por redes (anti) sociais, transformando-nos cada vez mais em mera mercadoria, que pode ser controlada de acordo com as “necessidades” da sociedade.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Discutir o sexo das lâminas

O surgimento da Indústria Cultural leva à propagação em grande escala de ideias como as do homem e mulher ideais, cujas necessidades, objectivos, aspirações e interesses estão definidos e inevitavelmente ligados a bens supérfluos, produzidos e distribuídos em massa. É com base nestas ideias que a indústria põe em prática uma segmentação de consumidores, regida por critérios como o seu sexo, idade e até mesmo etnia.
Esta categorização leva-nos, enquanto consumidores, a acreditar que as nossas necessidades individuais estão a ser atendidas e que temos, portanto, uma maior liberdade de escolha que nos permite optar pela solução que melhor se adapta às nossas características. No entanto, muitas vezes, esta segmentação não passa de uma divisão com base em estereótipos e que, na realidade, não é feita para beneficiar o consumidor mas antes a indústria, que agora consegue abranger uma maior quantidade e variedade de indivíduos.
Tomemos o exemplo da marcar Gillette. Embora esta se tenha tornado conhecida pelas suas lâminas de barbear para homem, há alguns anos passou também a comercializar a Gillette Venus, uma gillette para mulheres. Apesar de ambas as marcas terem o mesmo propósito, as diferenças que se verificam entre as duas são mais do que evidentes. Para constatar estas mesmas diferenças basta visitar o site de cada uma das marcas.
Na página inicial da Gillette Venus encontramos repetidamente a opção “Find your perfect match” (algo como “encontra a opção ideal para ti”), que nos conduz a um teste, cuja primeira questão nos pede para selecionar três imagens que, para nós, representem um dia perfeito, com respostas como “Romance” ou “Pool time”, acompanhadas pelas respectivas imagens.
Não só este teste reforça a ideia de segmentação de consumidores, já dentro de uma outra segmentação (por género), como nos prova que, muitas vezes, não há qualquer lógica na sua origem, uma vez que após a questão mencionada, são apresentadas mais algumas com a mesma irrelevância no que toca à escolha de uma lâmina para depilação. No site da Gillette para homem, embora seja possível consultar um catálogo com vários modelos, este não surge na página inicial com a mesma relevância que na página para mulheres. Quanto ao método de escolha, não envolve qualquer teste.
Outras diferenças evidentes nos sites, bem como nos próprios produtos, são a utilização de uma paleta de cores diferentes (mais suave e em tons pastel, para as mulheres, e em tons escuros e metálicos, para os homens), formas totalmente distintas, com curvas na Gillette feminina e linhas rectas na masculina. As diferenças continuam na apresentação dos produtos ao público, com a Gillette feminina a recorrer a termos como “breeze, satin, sensitive, embrace” nos nomes dos seus produtos, em comparação com a versão masculina de “Fusion, Power, Turbo”. A diferença mais evidente seria no gel, em que a expressão “cooling sensation” (F) contrapõe “Arctic Ice” (M).
Por fim, a própria publicidade de cada um não podia ser mais diferente, com cenas na praia, com amigas, para as mulheres e com homens saídos do banho, a fazer a barba, sozinhos, para o público masculino.
O exemplo da Gillete parece-me, por isso, um caso óbvio de segmentação de consumidores, segundo estereótipos presentes na nossa cultura, como a ideia da mulher como frágil, suave, emocional, delicada e a ideia do homem como prático, simples, eficaz, forte e confiante.

No final, ambas as marcas e os seus vários modelos cumprem uma mesma função: depilação. No entanto, eles são-nos apresentados de tal forma que parece correcto e natural que uma mulher, tendo a escolha, opte pela versão feminina e que um homem, na mesma opção, opte pela masculina.

Página da Gillete: http://www.gillette.com/pt/PT/home.aspx

Página da Gillete Venus: http://www.gillettevenus.com/en-US/

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Corredor rosa, corredor azul

Não há altura mais pertinente do que o Natal para se falar sobre o brinquedo da actualidade e denunciar a sua perigosa acção hegemónica.

Quando tinha 14 anos, a minha professora de teatro na altura mostrou-me o livro infantil “Fumo”, que retrata a vivência de uma criança num campo de concentração no Holocausto. Eu não conhecia estas realidades há muito tempo, e isso fez-me pensar como a criança no nossos tempo vive completamente alienada do conhecimento, ignorante do mundo, do que ele é e do que ele foi. Não será relevante as crianças tomarem contacto com estas temáticas desde pequenas?

Esta separação da realidade talvez pudesse ser legítima se, como defendia uma professora minha no Secundário anos mais tarde, fosse uma forma de preservar e cultivar a bondade que é inerente à inocência da criança; “preservá-la do mal”, permitir que sonhe enquanto é tempo para isso. Mas o acto de brincar já não se situa na dimensão do sonho e do devaneio, como Freud apontava.

As bolas, os arcos, os piões e as singelas figurinhas humanas, tão simples, foram substituídas por imitações cada vez mais fiéis da realidade. Nos brinquedos de hoje já não há nenhum elemento em falta para a imaginação completar. Exigimos cada vez menos da criança, que já não é capaz de sustentar as suas narrativas sem objectos.

O plástico tornou-se a base dos brinquedos. O seu tempo de vida reduziu-se drasticamente. Já não passam de geração em geração e são assim desprovidos de toda a sua aura. Walter Benjamin constatou isto no livro “Reflexões: a criança, o brinquedo, a educação”.

Lembro-me de, em pequeno, folhear catálogos de brinquedos de cores brilhantes. Passava sempre à frente as páginas que abundavam em azul e as que abundavam em cor-de-rosa, porque nenhum daqueles brinquedos me agradava. Gostava de Legos, jogos de tabuleiro, kits de artes plásticas e de ciência para crianças. As coisas que ficavam normalmente nas páginas verdes ou laranja.

Esta é a outra frente de ataque do capitalismo aos brinquedos — uma divisão por género fortíssima, que não sei se surgiu com o intuito de segmentar o mercado para vender mais, ou com o intuito de promover desde cedo os papéis de género tradicionais (ou os dois).

É fascinante constatar a partir dos brinquedos o caminho inacreditável que, em 2014, o feminismo ainda tem pela frente. Num catálogo deste ano vi as palavras “brincar aos adultos”, seguidas de casinhas, cozinhas e electrodomésticos, com duas ou três meninas a brincar. Estas páginas ilustravam muito bem a ideia que Simone de Bouvoir defendia de que não se nasce mulher: torna-se mulher.

No corredor rosa do supermercado podemos tentar outras alternativas: talvez as crianças prefiram levar as bonecas ao cabeleireiro e à manicure, para ficarem bonitas para quando os maridos chegarem a casa. Ou então ir às compras. A história já é velha. No corredor azul, heróis, aventuras, coragem e adrenalina. Actividade e individualidade. Armas, força, poder. Ciência: inacreditavelmente os brinquedos de ciência estão no corredor azul.

Hoje fascino-me ao observar que a hegemonia começa a sua acção ainda mais cedo que isso: antes de nascermos já temos um conjunto de roupas compradas de uma cor que se presume que vamos gostar (o bebé pode ter roupas de qualquer cor, desde que sejam azuis ou rosa!). Isto pode ter efeitos desastrosos especialmente nas crianças com uma identidade de género diferente da que é esperada e idealizada pela família.

A cor da roupa antes do nascimento é só a primeira etapa de um percurso de vida previamente delineado que herdamos e que esperam que se concretize. A ideologia dominante anestesia logo nos primeiros anos de vida a possibilidade de diferenciação e distanciamento crítico, que lhe são uma ameaça. Isto reflecte-se depois numa cultura de intolerância e hostilização da diferença. Será esta uma das origens do bullying?

Eu não quero que as minhas filhas ou os meus filhos sejam crianças produzidas em série. Quero que a sua individualidade, os seus gostos e as suas manias se desenvolvam naturalmente, sem serem modulados por esta cultura hegemónica doentia. Temos que ter consciência da sua força e gravidade, e denunciá-la.

As maçãs não são todas iguais

Vivemos numa sociedade capitalista em que o lucro é o fim da grande maioria das actividades económicas. É também uma sociedade materialista, em que o estatuto social  é medido pelos bens que cada um possui. Isto não é novidade, palavras, hábitos, sentimentos, entre muitas outros factores que nos rodeiam, sempre foram influenciados pela cultura; mas actualmente chegámos ao extremo da perda de autonomia do Homem e da catalogação por tipos. Nesta sociedade pós-moderna, composta por consumidores, vemo-nos divididos em diversos níveis de consumo, estando todos nós inseridos num “tipo” de consumidor pré-determinado. Assim, é quase certo que nos sentiremos sempre influenciados, mesmo que inconscientemente, pelo mercado que nos rodeia. No nosso dia-a-dia somos bombardeados com apelos ao consumo dos mais diversos produtos e seduzidos a querer possui-los.

Sabem qual é a empresa mais valiosa do mundo, que vale mais de três vezes o PIB português? Isto é, os residentes de Portugal teriam que trabalhar durante três anos para comprar 100% do seu capital. Esta empresa é a apple. E, tal como dezenas de outras empresas pelo mundo fora, faz smart phones, tablets e computadores. Aparelhos que para além de cumprirem as suas funções de comunicação ou outras são também ícones de moda e o desejo de milhões de pessoas em todo o mundo.

Somos assim seduzidos pelos objectos desta marca, e em especial pelo seu produto estrela: o iPhone. O iPhone é um telefone com características técnicas semelhantes a outros disponíveis no mercado. No entanto, o desejo de possuir um iPhone, em muitos casos, vai muito além do seu aspecto funcional. É um símbolo de status e o desejo de o possuir faz com que a apple possa cobrar um valor muito superior àquele que é cobrado  por empresas concorrentes por aparelhos as mesmas características.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Aura Perdida

A evolução tecnológica alargou os processos técnicos das artes, modificando para sempre a noção de arte. As obras de arte são, cada vez mais, facilmente reprodutíveis.
O aqui e agora de Walter Benjamin é hoje uma característica faltosa nas obras contemporâneas. São eliminados conceitos tradicionais como, por exemplo, a autenticidade. Muitas formas de arte surgiram e desapareceram. Estaria certo Benjamim quando pôs em causa a existência eterna da pintura?
Analisemos um caso prático de pintura contemporânea, que me parece de grande pertinência esta abordagem devido, à sua crescente presença no nosso quotidiano: os murais de "street art". Estes: donos do aqui e agora são peças únicas, modificam-se na sua estrutura física ao longo do tempo, são efémeros e de propriedade pública- alterou-se a relação das massas com a arte e segundo Benjamim a observação simultânea de pinturas, por parte de um grande publico, é um sintoma precoce da crise da pintura. 
Apesar de conservarem alguns valores do passado, estes murais carecem, na sua maioria, da aura que Benjamin fala em "A Obra de Arte na Era da Sua Reprodutibilidade Técnica". Faz parte do procedimento artístico, o recurso ao vídeo projector, como forma de economizar tempo, dinheiro e superar a incapacidade de pintar em grandes escalas, acertando-se digitalmente a proporcionalidade do desenho. Quando estamos perante um mural resultante deste processo, não estamos perante um original autêntico pois esse é de dimensões menores, mas sim perante a sua reprodutibilidade que resulta de um trabalho manual sustentado por um trabalho técnico (vídeo projector), anulando desta forma a autenticidade do original. 
Por vezes o reprodutível é muito mais completo e trabalhado que o original mas o recurso a este meio digital é, no meu entender, o bastante para lhe retirar a sua aura. A mão liberta-se da mais importante obrigação artística no processo de reprodução de imagem. O processo de reprodução estabelece a diferenciação e graduação da autenticidade de uma obra.
O que murcha com a era da reprodutibilidade é a sua aura. Os génios/mestres da pintura e de tantas outras áreas artísticas fazem parte do passado, a sociedade actual impossibilita a sua formação a este ritmo tão acelerado. A rapidez é exigida. O homem está alienado às tecnologias, estas facilitam o seu trabalho mas, neste exemplo prático também conotam negativamente o mesmo.

Campanha da marca Pantene expõe sociedade de esteriotipos sexistas

  Apesar dos avanços relativos na luta contra o estereótipo entre sexos, este ainda está bastante presente no dia-a-dia de cada um. Para muitos é algo que passa despercebido, ou simplesmente não lhes interessa, pois, muito provavelmente, ainda não estiveram directamente numa situação de desigualdade de género ou, simplesmente, porque se deixam levar por opiniões. Muitas destas baseadas noutras concebidas à décadas.

  Quero esclarecer que não são só as mulheres a sofrer desta desigualdade, mas vou focar este comentário na defesa do lado feminino, baseando-me num anúncio da marca Pantene (site oficial da marca: http://www.pantene.pt/pages/index.aspx).
  Este anúncio pretende demonstrar, num minuto, o quão visíveis e presentes, são as diferenças entre o julgamento social ao feminino e o julgamento social ao masculino. A marca coloca uma mulher e um homem desenvolvendo as mesmas ações, tendo especial foco no dia a dia de um(a) chefe de empresa, e mostrando como a sociedade difere de opinião baseando-se no sexo da pessoa.




  Visto o anúncio, é de fácil percepção que as mesmas ações, quando feitas pelo homem, são vistas positivamente e têm a aprovação social. Quando feitas pela mulher, ganham um ponto de vista social negativo e, ao contrário do homem, não têm aprovação.
  Por exemplo, numa reunião, enquanto o homem é visto como patrão, mestre, etc,  a mulher, por seu lado, é vista como autoritária ou até mesmo arrogante.
  Um homem arranja-se de manhã e veste-se bem, é visto como alguém calmo, sereno e arrumado. Uma mulher na mesma situação é catalogada como sendo superficial, vaidosa e exibicionista.



  O tópico inserido nesta campanha não passou despercebido nos meios de comunicação nem nos meios sociais.
  O programa de comentários Buzz:60 mostrou de modo geral a intenção da marca Pantene e a opinião de uma escritora, na sua página do facebook, sobre o assunto.



Esta campanha serviu e serve para mostrar o longo caminho a percorrer para eliminar a barreira entre o feminino e o masculino, que ainda existe.
  O anúncio, e as suas mensagens finais dirigidas às mulheres, "Não deixes que os rótulos te detenham'' e "Sê forte e brilha",para além de abrir discussão ao assunto "estar no comando e ter uma boa aparência", como é referido no vídeo anterior pela interlocutora Mara Montalbano. Pretende dizer, também, que não deixem que os rótulos adquiridos, seja no emprego ou na vida em geral, as demova. Que continuem a fazer o que fazem, mostrando que as mulheres não são inferiores, nem superiores, aos homens, são apenas diferentes fisicamente e isso não impede de receberem um igual nível de respeito socialmente.
  Pois no que toca ao merecimento de respeito somos todos iguais.

P.s. Os vídeos podem aparentar ser iguais mas não são.






Industria cultural e urbanismo

A industria cultural é um macrocosmo para as massas. É uma realidade que está entranhada na sociedade, mas que permanece incosciente nos cidadãos. O arrastamento das massas para a cidade segundo Adorno e Horkeimer é um primeiro passo para o urbanismo. Esta aproximação gera centros habitacionais, "(...) os moradores são enviados para os centros, como produtores e consumidores, em busca de trabalho e diversão (...)", ou seja, os centros preparam-se fisicamente para receber as massas.
A representação destes focos é baseada numa ideia de rotina. À semelhança deste conceito sobre o comportamento das massas, associa-se a ideia de Cesário Verde. Sendo um poeta que retrata o quotidiano de modo a observar a essência, os hábitos e costumes da sociedade, o seu trabalho poético centra-se na dicotomia da cidade e do campo, como podemos observar no poema Sentimento dum Ocidental. Neste poema o autor faz uma caracterização negativa a partir do  "olhar para a cidade", modificando o seu estado de espírito.
"O céu parece baixo e de neblina/ O gás extravasado enjoa-me, perturba/E os edifícios, com as chaminés, e a turba/ Toldam-se duma cor monótona e londrina."
Vazam-se os arsenais e as oficinas/ Reluz viscoso, o rio, apressam-se as obreiras/ E num carduma negro, hercúleas galhofeiras/ Correndo com firmeza, assomam as varinas.

Na minha opinião, a obra de Cesário Verde complementa a ideia de Adorno e Horleimer sobre um monopólio citadino. A razão pela qual as massas são observadas de um ponto de vista de arrastamento consequente, faz com que estas deixem de ser idênticas no seu meio, na sua casca de identidade. Não existe qualquer tipo de independência e individualidade, pelo contrário, estas "(...) células habitacionais cristalizam-se em complexos densos e bem organizados.". Esta é a imagem criada pelos "dirigentes que nem estão  muito interessados em encobri-lo (o monopólio)”. O seu poder torna-se mais autónomo quanto mais reconhecido for, portanto, "fortalece-se quanto mais brutalmente ele se assume como público".


Números que ditam e ordenam

Um trabalho na escola requer um determinado período de tempo, tempo despendido, pestanas que se gastam a "olhos vistos" para concluir com determinação e certeza uma das peças fundamentais da levianamente apelidada "avaliação contínua" a qual esta inserida no ensino português.
Para alguns o trabalho em articulação é deveras complicado, impreciso e desmedido, devido ao elevado número de actividades extra curriculares e voluntárias que são frequentadas e/ou de foro familiar e consecutivamente de maior prioridade. O que acontece é que esse trabalho não pode sequer ser dispensado, ganha quase tanta importância quanto o nosso respirar, porque para além das fortes premissas da avaliação, notas que parecem citar e conduzir o nosso futuro, possuímos, ainda mal, a nossa consciência que não cessa até ao momento final da entrega, definida como crucial, ao ponto de as "noites sem dormir" ou se preferirem "directas" serem constantes e de elevada frequência, pois o trabalho precisa, a nota precisa de ser alimentada com sangue, suor e lágrimas, peço desde já imensas desculpas pelo pobre termo utilizado, já que o seu uso exacerbado já desgastou todo o brilho das palavras constituintes da frase.
Confinar vidas e existências a horas de trabalho intermináveis para atingir uma cotação, um número, dois dígitos que vão assegurar o nosso percurso no universo académico.
Muitos dizem sem aparentes receios "não, as notas não interessam, não valorizam o esforço e aquilo que és" enquanto o seu olhar permanece pousado sobre uma futura avaliação que, quer seja desejado quer não. terá um resultado, qualitativo ou quantitativo, é fruto de uma lógica matemática que empiricamente julga e afere factores humanos e reais.
Um valor, um valor numérico, uma escala de valores atribuída em função do trabalho de cada um? Ou em função da qualidade apresentada? - não tenho nada contra os números, sem eles, não seríamos o que somos, mas acho que não foram feitos para classificar o trabalho humanizado e não matemático de determinado indivíduo, não me culpo pela utilização exagerada do termo "valor", a meu ver digno de uma plena simbologia e não de um cunho monetário ou numérico.
O mesmo se passa no âmbito dos empregos remunerados, uns quantos euros no final do mês vão pagar, vão consolar, vão assumir um papel revigorante para as horas de sono perdidas, o esforço braçal, físico e psicológico ao qual recorremos  em desespero para cumprir prazos, de entregas de relatórios, cumprimento de horas extraordinárias, 700 euros no final de 30 dias consecutivos, a remar contra uma maré de ondas de tempo que escasseia, são capazes de cobrir tudo isso?
Um valor de troca atribuído a cada um de nós, e ninguém se apercebeu ainda, sem me querer pronunciar acerca das pouco "dignas" injustiças que coexistem com a classificação de empregos que neste caso equivalem a estatutos sociais e tendencialmente raciais, pois a ostracização continua em voga, mas por outros motivos.
Precários e privilegiados, um salário atribuído em gradação a cada um deles. 
A igualdade de direitos, foi sem dúvida reprimida, mas esse facto continua invisível.



Fonte do vídeo: sulibreezy

A obra de Arte

No livro “A Obra de Arte na Era da Sua Reprodutibilidade Técnica”, Walter Benjamin define alguns conceitos intrínsecos à obra de arte. 
Ele refere que a obra de arte, na sua essência, sempre foi reprodutível, através de homens que as mimetizavam e de outros meios técnicos. Contudo, nessas obras reproduzidas, faltava a autenticidade, o aqui e agora, que a obra original possui. Por essa razão, essas reproduções não são consideradas como uma obra de arte, pois não tem o mesmo contexto, nem está inserida na tradição da original. 
Por essa razão, o aqui e o agora representam a sua existência única e o lugar onde ela se encontra. Como por exemplo a obra “Guernica" de Pablo Picasso que se encontra no “Museu Nacional Centro de Arte Reina Sofia”. Estes princípios representam a autenticidade da obra de arte, visto que a obra original preserva a história e a tradição da mesma. 
Assim sendo, a obra de arte contém uma aura, que ao ser reproduzida é constantemente destruída, visto que o aqui e o agora, vai perdendo o seu significado, pois não precisamos deslocar-nos ao sítio para conhecermos a obra. Por outro lado, se nós virmos uma reprodução da Guernica, sabemos que não é a obra original, pois temos referente ao mesmo, que se encontra no “Museu Nacional Centro de Arte Reina Sofia”, por isso a aura da mesma não se perde na totalidade.
O mesmo, não acontece no que se relaciona às novas formas de produzir arte, como o cinema e a fotografia, pois estes não têm um referente original, que se encontra apenas num sítio específico e quanto mais são reproduzidas, mais se perde a aura da mesma. 
Um dos movimentos que aniquila a aura da obra de arte é o Dadaísmo, ao terem o intuito de anular qualquer utilização contemplativa, através da desvalorização sistemática do seu material.
Um exemplo Dadaísta é a “Fonte” de Marcel Duchamp em 1917. Com esta e outras obras, ele introduziu o conceito de readymade, que é a utilização de um objecto que se usa no quotidiano, que a princípio não é reconhecido como artístico, mas que é transportado para objecto artístico. E exibidos como tal sem qualquer intervenção no mesmo, ou seja, como ele saía da fábrica era como ia para o museu.
Embora isto tenha um conceito “crítico” por base, anula completamente o conceito de Walter Benjamin de obra de arte, visto que, o objecto artístico provém da reprodução a nível industrial e não do trabalho manual do artista.
Aliás, na verdade, o objecto original produzido por J. L. Motta Iron Works Company, não chegou a ser exibido, sendo que permaneceu “in absentia” até os anos 1940, quando Duchamp começou a fazer réplicas dela para vários museus. 
Por esta razão, esta obra artística não tem a autenticidade, nem a aura que Walter Benjamin refere, visto que, a referência que temos hoje em dia não se trata da original, porque ela como objecto artístico não chegou a existir, e as que vemos hoje em dia são réplicas, não há nenhuma única, que tenha o aqui e agora. 

Será que hoje em dia existem obras de arte, ou apenas objectos artísticos?

Semelhança entre Sistema Linguístico e Semiótica

Termos derivados da palavra grega sēmeion, que significa “signo”, desde a antiguidade existe uma disciplina chamada de “Semiologia”, sinonimo de Semiótica, uma ciência geral dos signos e da semiose, que consiste no estudo dos diversos fenômenos culturais como se fossem sistemas de significação, procurando interpretar mensagens na medida dos seus signos e padrões simbólicos. Esta complexa ciência desenvolveu o seu estudo através de ilustres autores, designando-se como Semiótica, o saber geral dos signos ligado directamente às teorias do norte-americano Charles Sanders Peirce, e Semiologia, ligada à vertente europeia do mesmo estudo sustentada no Curso de Linguística Geral do suíço Ferdinand de Saussure, as quais tinham metodologia e enfoque diferenciados entre si.

Comparativamente à linguística, a qual se restringe apenas ao estudo do sistema sígnico da linguagem verbal, a semiótica tem por objecto qualquer sistema sígnico - Artes visuais, Música, Fotografia, Cinema, Culinária, Vestuário, Gestos, Religião, Ciência, etc.
Teoricamente, na vertente europeia, o signo adoptava um carácter duplo, composto por dois planos complementares - a “forma” (ou “significante”, aquilo que representa algo) e o “conteúdo” (ou “significado” do que é indicado pelo significante).

A semiologia seria uma ciência dupla - semiológica e epistemológica - que busca relacionar uma certa sintaxe, relativa à “forma”, a uma semântica, relativa ao “conteúdo”.
Mais complexa do que a vertente europeia, a vertente norte-americana de Peirce considera o signo em três elementos. Sendo este concebido de forma triádica, o signo é formado pela representarem (o que funciona como signo para quem o percebe), pelo objecto (o que é referido pelo signo) e pelo interpretante (o efeito do signo naquele que o interpreta). Peirce define três categorias para signos, em oposição à relação dual de Saussure a sua enunciação do significante e significado como componentes da unidade mínima.


As origens deste saber remontam à época clássica e medieval, através de pensadores como Platão e Santo Agostinho, desenvolvendo-se continuamente até à actualidade. No entanto, é a partir do século XX, com contributo de grandes teóricos que viriam a ser apelidados como pais da semiótica ou da semiologia, que o estudo geral dos signos começa a adquirir autonomia e o carácter de ciência.

Tempo

A existência do ser não se deve à existência do tempo, pelo contrário, o tempo existe porque há um sujeito.
Apesar de ele existir uma vez que nós existimos, somos seres sempre obrigados a ele, porque mesmo renegando-o, somos obrigados a pertencer a cada instante, a cada curto momento do tempo (falo, claro, se o nosso objetivo for a vida).

Este pensamento liga-se diretamente a Ferdinand de Saussure (séc. XIX), quando reduz a linguística ao seu princípio essencial, ao seu signo, este que se divide em duas partes: o significante (parte material do signo) e o significado (parte conceptual do signo). A estes dois termos, Saussure vai adicionar mais dois, criando os conceitos de linearidade do significante e arbitrariedade do significado. Era precisamente a este ponto que eu queria chegar.
Tal como a construção de uma frase, consideremos uma vida e o seu tempo.
A junção das palavras que formam uma frase sucedem-se linearmente. Somos obrigados a estar neste momento depois do momento que passou, tal como a palavra que escrevo agora está obrigada a existir depois da anterior. Tudo se traduz a uma linha, que se vai prolongando, desde o início até ao seu fim, semelhante ao tempo de uma vida, desde que nascemos até que morremos.
Porém, apesar desta linearidade obrigatória, existe também um princípio arbitrário na linguística e na própria vida. Temos vastas possibilidades na escolha mental de uma palavra, da palavra que vai suceder todas as outras, tal como na nossa vida quando fazemos a escolha entre várias coisas. Podemos ter duas certezas nisto. A primeira, em que sabemos que no instante do tempo que vamos viver a seguir ao que estamos a viver vai acontecer algo que ainda não sabemos, uma vez que isso está dentro do campo das possibilidades, em que ainda nada existe mas não há limite para o que possa existir. A segunda é que sabemos que independentemente do que escolhamos, isso vai ser algo irreversível. Por exemplo, depois de dizermos uma palavra, não conseguimos apagar o instante onde dissemos tal palavra; quando fazemos algo na nossa vida, não podemos apagar isso do nosso tempo.

Não é possível estar em mais do que um instante ao mesmo tempo. O tempo existe porque nós existimos. Estamos obrigados a ele, mas mesmo assim ele escapa-nos, escapa-nos sempre, a cada instante. Nunca nos pertence.