terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Tempo

A existência do ser não se deve à existência do tempo, pelo contrário, o tempo existe porque há um sujeito.
Apesar de ele existir uma vez que nós existimos, somos seres sempre obrigados a ele, porque mesmo renegando-o, somos obrigados a pertencer a cada instante, a cada curto momento do tempo (falo, claro, se o nosso objetivo for a vida).

Este pensamento liga-se diretamente a Ferdinand de Saussure (séc. XIX), quando reduz a linguística ao seu princípio essencial, ao seu signo, este que se divide em duas partes: o significante (parte material do signo) e o significado (parte conceptual do signo). A estes dois termos, Saussure vai adicionar mais dois, criando os conceitos de linearidade do significante e arbitrariedade do significado. Era precisamente a este ponto que eu queria chegar.
Tal como a construção de uma frase, consideremos uma vida e o seu tempo.
A junção das palavras que formam uma frase sucedem-se linearmente. Somos obrigados a estar neste momento depois do momento que passou, tal como a palavra que escrevo agora está obrigada a existir depois da anterior. Tudo se traduz a uma linha, que se vai prolongando, desde o início até ao seu fim, semelhante ao tempo de uma vida, desde que nascemos até que morremos.
Porém, apesar desta linearidade obrigatória, existe também um princípio arbitrário na linguística e na própria vida. Temos vastas possibilidades na escolha mental de uma palavra, da palavra que vai suceder todas as outras, tal como na nossa vida quando fazemos a escolha entre várias coisas. Podemos ter duas certezas nisto. A primeira, em que sabemos que no instante do tempo que vamos viver a seguir ao que estamos a viver vai acontecer algo que ainda não sabemos, uma vez que isso está dentro do campo das possibilidades, em que ainda nada existe mas não há limite para o que possa existir. A segunda é que sabemos que independentemente do que escolhamos, isso vai ser algo irreversível. Por exemplo, depois de dizermos uma palavra, não conseguimos apagar o instante onde dissemos tal palavra; quando fazemos algo na nossa vida, não podemos apagar isso do nosso tempo.

Não é possível estar em mais do que um instante ao mesmo tempo. O tempo existe porque nós existimos. Estamos obrigados a ele, mas mesmo assim ele escapa-nos, escapa-nos sempre, a cada instante. Nunca nos pertence.