A existência do ser não se deve à existência do tempo, pelo contrário,
o tempo existe porque há um sujeito.
Apesar de ele existir uma vez que nós existimos, somos seres sempre
obrigados a ele, porque mesmo renegando-o, somos obrigados a pertencer a cada instante,
a cada curto momento do tempo (falo, claro, se o nosso objetivo for a vida).
Este pensamento liga-se diretamente a Ferdinand de Saussure (séc. XIX),
quando reduz a linguística ao seu princípio essencial, ao seu signo, este que
se divide em duas partes: o significante (parte material do signo) e o significado
(parte conceptual do signo). A estes dois termos, Saussure vai adicionar mais
dois, criando os conceitos de linearidade do significante e arbitrariedade do
significado. Era precisamente a este ponto que eu queria chegar.
Tal como a construção de uma frase, consideremos uma vida e o seu
tempo.
A junção das palavras que formam uma frase sucedem-se linearmente. Somos
obrigados a estar neste momento depois do momento que passou, tal como a
palavra que escrevo agora está obrigada a existir depois da anterior. Tudo se
traduz a uma linha, que se vai prolongando, desde o início até ao seu fim,
semelhante ao tempo de uma vida, desde que nascemos até que morremos.
Porém, apesar desta linearidade obrigatória, existe também um
princípio arbitrário na linguística e na própria vida. Temos vastas possibilidades
na escolha mental de uma palavra, da palavra que vai suceder todas as outras, tal
como na nossa vida quando fazemos a escolha entre várias coisas. Podemos ter
duas certezas nisto. A primeira, em que sabemos que no instante do tempo que
vamos viver a seguir ao que estamos a viver vai acontecer algo que ainda não sabemos,
uma vez que isso está dentro do campo das possibilidades, em que ainda nada
existe mas não há limite para o que possa existir. A segunda é que sabemos que
independentemente do que escolhamos, isso vai ser algo irreversível. Por exemplo,
depois de dizermos uma palavra, não conseguimos apagar o instante onde dissemos
tal palavra; quando fazemos algo na nossa vida, não podemos apagar isso do
nosso tempo.
Não é possível estar em mais do que um instante ao mesmo tempo. O tempo
existe porque nós existimos. Estamos obrigados a ele, mas mesmo assim ele
escapa-nos, escapa-nos sempre, a cada instante. Nunca nos pertence.