domingo, 14 de dezembro de 2014

Realide(s)?

   A temática da linguística e do seu comportamento a níveis teóricos é uma matéria abundantemente referida em função da divisão do objeto de estudo de Saussure e da sua tentativa de compreensão da matriz do objeto cultural que é a língua, sendo que, essa mesma divisão, pode também ter em si leituras de associação mais aprofundadas à noção de sociedade que se nos apresenta no mundo atual, sendo-nos dessa forma possível uma resposta que reflita a realidade das coisas.
   Por um lado, ao lermos Saussure acreditamos numa realidade que suporta o conceito base de Significado, ao qual corresponde uma abordagem material na qual se inclui o som ou escrita produzidos ao enunciar de um conjunto de sonoros ou símbolos – letras - capazes de formular uma ou mais palavras e, por oposição, ou talvez, diria eu, por complemento, o Significante, ou seja, a realidade in absentia da língua patente no pensamento de cada indivíduo, criador e intermediário entre a formulação do mundo visível e o mundo invisível.
   Tendo em conta a diferenciação entre o mundo das “coisas em si” e a sua oposição aparente, ou seja, das representações sucessivas por meio do pensamento, somos assim capazes de analisar a sociedade nos seus diversos âmbitos, sendo que para tornar específico e mais exemplar, decidi assim neste discurso tratar de um algo de alguma forma indefinido, e, ao mesmo tempo de carácter universal, assistindo todo o ser capacitado de sensações, ao longo da sua vida e em todas as suas possíveis formas: o amor.
   Neste caso, o amor é a matéria pela qual já diversos artistas, pensadores comuns ou mais ousados e muito possivelmente talvez até os próprios animais, muitas vezes desprezados pelo homem, tiveram a sensação de já o ter experienciado quer de forma mais ou menos intensa - gosto até de acreditar que as próprias pedras o fazem, noção possivelmente inconcebível para o século XXI e anteriores devido à falta de consciência da sua própria ignorância. Talvez também Alberto Caeiro estivesse errado enquanto ria de poetas místicos enquanto os próprios diziam que as pedras tinham alma…
   De todo o modo, o amor, tal como a língua, também pode ser abordado por meio de duas vertentes distintas que se revelam na sociedade. Por um lado o amor na sua representação dita real, ou seja a sensação de experiência do sentimento em si, por outro, a sua representação, muitas vezes assumida como igual, ou seja o Romance que ganha credibilidade por meio da crença no mesmo.
   Desta forma, temos uma sociedade que se divide e confunde simultaneamente, deixando-se envolver na representação do que é assumido como real, ou seja, do amor como aquilo “que existe”, a que neste caso corresponde o romance muitas vezes em forma de criação literária ou cinematográfica perante a qual o espectador toma como real aquilo que na verdade é a representação do conceito original: amor.
   Assim, tendo o leitor a noção desta diferença, o mesmo pode sentir-se levado a pensar que a realidade está na coisa em si e não na sua representação, no entanto, queria deixar como uma possibilidade de carácter mais pessoal que assume a verdade como tudo aquilo que podemos também experienciar, ver, sentir, não que esta seja a pura realidade das coisas, no entanto, essa realidade representativa é capaz de ser tão real quanto nos é possível parecer. Portanto, a realidade visível por mais individual que nos pareça, é uma realidade.
  Podemos desta forma criar uma analogia com um ambiente de especulação: sugiro ao leitor criar a imagem visual de um grupo de discussões acesas, ou seja, um grupo com diversas individualidades distintas entre si, e, consequentemente opiniões distintas. No meio deste fervilhar de opiniões em relação a um qualquer assunto, a cada personalidade presente na sala caberá a crença numa opinião - opinião essa que já por si é uma crença -, que lhe parecerá mais plausível, ou, melhor dizendo, mais aproximada à sua realidade individual.
  Posto isto, posso concluir que a opinião, ou, o romance, ou o significante apesar de uma representação de algo aparentemente mais real, na verdade é tão real quanto nos parece ser, e não mais simples, ou fútil, ou vaga, por mais infinita que seja a disparidade entre respostas para a suposta representação de algo, logo a realidade está tão no individuo que assume realidades distintas, como nas próprias “coisas em si”.