A temática da
linguística e do seu comportamento a níveis teóricos é uma matéria
abundantemente referida em função da divisão do objeto de estudo de Saussure e da sua tentativa de
compreensão da matriz do objeto cultural que é a língua, sendo que, essa mesma
divisão, pode também ter em si leituras de associação mais aprofundadas à noção
de sociedade que se nos apresenta no mundo atual, sendo-nos dessa forma possível
uma resposta que reflita a realidade das coisas.
Por um lado, ao lermos Saussure acreditamos
numa realidade que suporta o conceito base de Significado, ao qual corresponde
uma abordagem material na qual se inclui o som ou escrita produzidos ao enunciar
de um conjunto de sonoros ou símbolos – letras - capazes de formular uma ou
mais palavras e, por oposição, ou talvez, diria eu, por complemento, o
Significante, ou seja, a realidade in absentia
da língua patente no pensamento de cada indivíduo, criador e intermediário
entre a formulação do mundo visível e o mundo invisível.
Tendo em conta a diferenciação entre o mundo
das “coisas em si” e a sua oposição aparente, ou seja, das representações
sucessivas por meio do pensamento, somos assim capazes de analisar a sociedade
nos seus diversos âmbitos, sendo que para tornar específico e mais exemplar, decidi
assim neste discurso tratar de um algo de alguma forma indefinido, e, ao mesmo
tempo de carácter universal, assistindo todo o ser capacitado de sensações, ao
longo da sua vida e em todas as suas possíveis formas: o amor.
Neste caso, o amor é a matéria pela qual já
diversos artistas, pensadores comuns ou mais ousados e muito possivelmente
talvez até os próprios animais, muitas vezes desprezados pelo homem, tiveram a
sensação de já o ter experienciado quer de forma mais ou menos intensa - gosto
até de acreditar que as próprias pedras o fazem, noção possivelmente
inconcebível para o século XXI e anteriores devido à falta de consciência da
sua própria ignorância. Talvez também Alberto Caeiro estivesse errado enquanto
ria de poetas místicos enquanto os próprios diziam que as pedras tinham alma…
De todo o modo, o amor, tal como a língua,
também pode ser abordado por meio de duas vertentes distintas que se revelam na
sociedade. Por um lado o amor na sua representação dita real, ou seja a
sensação de experiência do sentimento em si, por outro, a sua representação,
muitas vezes assumida como igual, ou seja o Romance que ganha credibilidade por
meio da crença no mesmo.
Desta forma, temos uma sociedade que se
divide e confunde simultaneamente, deixando-se envolver na representação do que
é assumido como real, ou seja, do amor como aquilo “que existe”, a que neste
caso corresponde o romance muitas vezes em forma de criação literária ou
cinematográfica perante a qual o espectador toma como
real aquilo que na verdade é a representação do conceito original: amor.
Assim, tendo o leitor a noção desta
diferença, o mesmo pode sentir-se levado a pensar que a realidade está na coisa
em si e não na sua representação, no entanto, queria deixar como uma
possibilidade de carácter mais pessoal que assume a verdade como tudo aquilo que
podemos também experienciar, ver, sentir, não que esta seja a pura realidade
das coisas, no entanto, essa realidade representativa é capaz de ser tão real
quanto nos é possível parecer. Portanto, a realidade visível por mais
individual que nos pareça, é uma realidade.
Podemos desta forma criar uma analogia com um
ambiente de especulação: sugiro ao leitor criar a imagem visual de um grupo de
discussões acesas, ou seja, um grupo com diversas individualidades distintas
entre si, e, consequentemente opiniões distintas. No meio deste fervilhar de
opiniões em relação a um qualquer assunto, a cada personalidade presente na sala
caberá a crença numa opinião - opinião essa que já por si é uma crença -, que
lhe parecerá mais plausível, ou, melhor dizendo, mais aproximada à sua realidade
individual.
Posto isto, posso concluir que a opinião, ou,
o romance, ou o significante apesar de uma representação de algo aparentemente mais
real, na verdade é tão real quanto nos parece ser, e não mais simples, ou
fútil, ou vaga, por mais infinita que seja a disparidade entre respostas para a
suposta representação de algo, logo a realidade está tão no individuo que
assume realidades distintas, como nas próprias “coisas em si”.