sábado, 27 de dezembro de 2014

O Ópio do Povo

Tendo em conta que na sociedade dos tempos de hoje, mal uma criança nasce, é-lhe instantaneamente incutido o conceito de fama e poder, porque não debruçar-me um pouco sobre isso?
Pois bem, existem inúmeras maneiras de se tornar conhecido: umas mais trabalhosas, outras mais nobres e claro, outras mais fáceis, por exemplo, participar num reality show. Entra-se para uma casa com um grupo de pessoas que não se conhece de lado nenhum, finge-se criar laços afectivos com os outros concorrentes, e quando sai da casa começa a fazer presenças em discotecas, apresentar programas sobre outros reality shows que se vão sucedendo uns aos outros. Vida feita! Ou talvez não...
A fórmula é simples, tanto para quem participa como para quem assiste. Uma parte ganha a tão desejada fama, a outra, que neste caso está do lado de fora do caixote, esquece os problemas diários por umas horas e diverte-se “espiando” a vida dos que se sujeitam a isso.
Mas como todos os programas correm o risco de entrar em monotonia, é necessário que haja uma espécie de “novela” que faça com que os espectadores, inconscientemente, comentem os sucedidos no café, na escola ou inclusive no trabalho. Para isso a equipa de produção do programa manipula os participantes de modo a darem espectáculo, incentivando triângulos amorosos e até cenas de “quase” agressão, peripécias estas que presenciam o jantar de inúmeras famílias, pois os canais televisivos insistem em passar tais programas geralmente às refeições e horários nobres.
É uma novela com pessoas, supostamente, reais que faz com que o público se envolva de tal maneira que chega ao ponto de gastar rios de dinheiro com o único objectivo de expulsar este ou aquele concorrente e depois queixam-se que não há dinheiro para por pão na mesa. Os principais espectadores deste tipo de programas caem no grupo de adolescentes que acham que por tentar manter aquele “tipo giro” do programa, um dia vão chegar a conhecê-lo. No  entanto, a única coisa que se dá a conhecer é a conta telefónica ao fim do mês, com valores exorbitantes de chamadas com valores acrescentados. Mas se por um lado são os progenitores destes jovens que sofrem, também eles são os principais responsáveis por permitir que este tipo de programas entrem em sua casa, pois existem inúmeras séries disponíveis e à mão de qualquer um, bem mais educativas.
Como já se percebeu os programas da “vida real” são autênticos monopólios e o produto mais visível desse monopólio são os antigos concorrentes. Graças a estes programas há apresentadores de televisão que o único ponto que têm no seu curriculum, para além da escolaridade básica, é o facto de terem participado num Big Brother ou Secret Story.
Até que ponto vale a pena andar a “queimar pestanas” uma vida inteira quando se pode simplesmente concorrer num destes programas e ter um trabalho? Qualquer estudante desmotiva ao pensar um pouco nisto.
Mas, por outro lado, o que vale mais? Ter dinheiro e fama, ou ser feliz e ter dignidade? Infelizmente nem toda a sociedade escolhe o mesmo lado.

Se Marx fosse vivo talvez mudasse a sua opinião e dissesse que, afinal, o ópio do povo são os reality shows e não a religião.