Tendo em conta que na sociedade dos tempos de hoje, mal uma
criança nasce, é-lhe instantaneamente incutido o conceito de fama e poder,
porque não debruçar-me um pouco sobre isso?
Pois bem, existem inúmeras maneiras de se tornar conhecido:
umas mais trabalhosas, outras mais nobres e claro, outras mais fáceis, por
exemplo, participar num reality show. Entra-se para uma casa com um grupo de
pessoas que não se conhece de lado nenhum, finge-se criar laços afectivos com
os outros concorrentes, e quando sai da casa começa a fazer presenças em
discotecas, apresentar programas sobre outros reality shows que se vão
sucedendo uns aos outros. Vida feita! Ou talvez não...
A fórmula é simples, tanto para quem participa como para
quem assiste. Uma parte ganha a tão desejada fama, a outra, que neste caso está
do lado de fora do caixote, esquece os problemas diários por umas horas e
diverte-se “espiando” a vida dos que se sujeitam a isso.
Mas como todos os programas correm o risco de entrar em
monotonia, é necessário que haja uma espécie de “novela” que faça com que os
espectadores, inconscientemente, comentem os sucedidos no café, na escola ou
inclusive no trabalho. Para isso a equipa de produção do programa manipula os
participantes de modo a darem espectáculo, incentivando triângulos amorosos e
até cenas de “quase” agressão, peripécias estas que presenciam o jantar de
inúmeras famílias, pois os canais televisivos insistem em passar tais programas
geralmente às refeições e horários nobres.
É uma novela com pessoas, supostamente, reais que faz com
que o público se envolva de tal maneira que chega ao ponto de gastar rios de
dinheiro com o único objectivo de expulsar este ou aquele concorrente e depois
queixam-se que não há dinheiro para por pão na mesa. Os principais espectadores
deste tipo de programas caem no grupo de adolescentes que acham que por tentar
manter aquele “tipo giro” do programa, um dia vão chegar a conhecê-lo. No entanto, a única coisa que se dá a conhecer é
a conta telefónica ao fim do mês, com valores exorbitantes de chamadas com
valores acrescentados. Mas se por um lado são os progenitores destes jovens que
sofrem, também eles são os principais responsáveis por permitir que este tipo
de programas entrem em sua casa, pois existem inúmeras séries disponíveis e à
mão de qualquer um, bem mais educativas.
Como já se percebeu os programas da “vida real” são
autênticos monopólios e o produto mais visível desse monopólio são os antigos
concorrentes. Graças a estes programas há apresentadores de televisão que o
único ponto que têm no seu curriculum, para além da escolaridade básica, é o
facto de terem participado num Big Brother ou Secret Story.
Até que ponto vale a pena andar a “queimar pestanas” uma
vida inteira quando se pode simplesmente concorrer num destes programas e ter
um trabalho? Qualquer estudante desmotiva ao pensar um pouco nisto.
Mas, por outro lado, o que vale mais? Ter dinheiro e fama,
ou ser feliz e ter dignidade? Infelizmente nem toda a sociedade escolhe o mesmo
lado.
Se Marx fosse vivo talvez mudasse a sua opinião e dissesse
que, afinal, o ópio do povo são os reality shows e não a religião.