terça-feira, 16 de dezembro de 2014

A sociedade das Barbies



Nos dias de hoje é praticamente impossível fugir aos padrões de beleza impostos pela publicidade, indústria da moda e pelo próprio ser humano para com os outros da sua espécie. Uma sociedade onde ter uns “quilinhos” a mais já é razão para sermos alvos de críticas e até abusos psicológicos e verbais, onde o excesso de magreza e a juventude são uma condição obrigatória para sermos considerados bonitos, saudáveis e “fashions”.

Desde crianças é-nos incutida a ideia de que para sermos bonitos temos obrigatoriamente de nos assemelharmos a uma Barbie e a um Ken, altos, magros, de figura esbelta, com bocas salientes, narizes pequenos, etc. As próprias crianças começam, desde cedo, a discriminar quem aparente ser diferente desse género praticando o bullying. O ser humano vive tão obcecado com a ideia de ser perfeito que chega a recorrer frequentemente às cirurgias plásticas como salvação para a sua autoestima; vemos adolescentes a colocar implantes mamários, jovens a fazer rinoplastias e adultos a injetarem botox até níveis extremos só porque lhes é impossível conviver com a ideia do envelhecimento.

Segundo Marx, um objeto natural ao sofrer a ação do homem torna-se mercadoria (João Queiroz, 2006, comunicação pessoal, 3 de Abril). Não podemos então considerar o corpo humano como sendo esse objeto?´

Este objeto parece-nos pertencer à Natureza, mas não pertence de facto. É mercadoria. Disfarça-se aos nossos olhos de natureza mas não o é. A esse processo chama-se fetichização. Fetichização é, portanto, a devolução da mercadoria ao mundo das coisas (natureza), com um valor que lhe foi acrescentado. (João Queiroz, 2006, comunicação pessoal, 3 de Abril).

O resultado das cirurgias plásticas é a chamada “mais-valia”, o que foi adicionado ao objeto, neste caso ao corpo humano, o qual foi modificado em relação ao que era antes; esta mais-valia, ao contrário de um objeto em si que é trocado por dinheiro ou mercadoria, é trocada por aceitação social. O corpo humano é tratado como uma mercadoria igual à que se vende nas prateleiras de um supermercado, onde a medicina constitui o “buraco negro” capaz de sugar todas as nossas imperfeições naturais, numa sociedade onde o importante é nos afirmarmos perante a nossa comunidade, corrigirmos essas imperfeições que nos fazem menos felizes porque a publicidade assim o diz e estarmos dentro do padrão considerando “perfeito”. Esta nova necessidade põe à prova o nosso ser como indivíduo genuíno, original e conduz, de certa forma, à desconsideração dos supostos valores mais importantes do ser humano quando agimos em comportamentos obsessivo-compulsivos tornando o nosso corpo, algo que era natural, numa simples e fútil mercadoria.

É de facto, importante refletirmos sobre isto e pensarmos por nós mesmos e não por um padrão que nos é imposto massivamente, é necessário nos sentirmos bem como somos para sermos mais felizes não deixando de ser genuínos e diferentes perante uma sociedade já por si tão uniforme e enxurrada de mercadoria, a qual conduz à destruição do ser humano e do seu corpo como sendo único e natural.