terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Números que ditam e ordenam

Um trabalho na escola requer um determinado período de tempo, tempo despendido, pestanas que se gastam a "olhos vistos" para concluir com determinação e certeza uma das peças fundamentais da levianamente apelidada "avaliação contínua" a qual esta inserida no ensino português.
Para alguns o trabalho em articulação é deveras complicado, impreciso e desmedido, devido ao elevado número de actividades extra curriculares e voluntárias que são frequentadas e/ou de foro familiar e consecutivamente de maior prioridade. O que acontece é que esse trabalho não pode sequer ser dispensado, ganha quase tanta importância quanto o nosso respirar, porque para além das fortes premissas da avaliação, notas que parecem citar e conduzir o nosso futuro, possuímos, ainda mal, a nossa consciência que não cessa até ao momento final da entrega, definida como crucial, ao ponto de as "noites sem dormir" ou se preferirem "directas" serem constantes e de elevada frequência, pois o trabalho precisa, a nota precisa de ser alimentada com sangue, suor e lágrimas, peço desde já imensas desculpas pelo pobre termo utilizado, já que o seu uso exacerbado já desgastou todo o brilho das palavras constituintes da frase.
Confinar vidas e existências a horas de trabalho intermináveis para atingir uma cotação, um número, dois dígitos que vão assegurar o nosso percurso no universo académico.
Muitos dizem sem aparentes receios "não, as notas não interessam, não valorizam o esforço e aquilo que és" enquanto o seu olhar permanece pousado sobre uma futura avaliação que, quer seja desejado quer não. terá um resultado, qualitativo ou quantitativo, é fruto de uma lógica matemática que empiricamente julga e afere factores humanos e reais.
Um valor, um valor numérico, uma escala de valores atribuída em função do trabalho de cada um? Ou em função da qualidade apresentada? - não tenho nada contra os números, sem eles, não seríamos o que somos, mas acho que não foram feitos para classificar o trabalho humanizado e não matemático de determinado indivíduo, não me culpo pela utilização exagerada do termo "valor", a meu ver digno de uma plena simbologia e não de um cunho monetário ou numérico.
O mesmo se passa no âmbito dos empregos remunerados, uns quantos euros no final do mês vão pagar, vão consolar, vão assumir um papel revigorante para as horas de sono perdidas, o esforço braçal, físico e psicológico ao qual recorremos  em desespero para cumprir prazos, de entregas de relatórios, cumprimento de horas extraordinárias, 700 euros no final de 30 dias consecutivos, a remar contra uma maré de ondas de tempo que escasseia, são capazes de cobrir tudo isso?
Um valor de troca atribuído a cada um de nós, e ninguém se apercebeu ainda, sem me querer pronunciar acerca das pouco "dignas" injustiças que coexistem com a classificação de empregos que neste caso equivalem a estatutos sociais e tendencialmente raciais, pois a ostracização continua em voga, mas por outros motivos.
Precários e privilegiados, um salário atribuído em gradação a cada um deles. 
A igualdade de direitos, foi sem dúvida reprimida, mas esse facto continua invisível.



Fonte do vídeo: sulibreezy