Curiosamente, ser lembrado após a sua
morte é uma necessidade inequívoca do homem. Existem diversas formas de ficar
marcado na história mundial, umas mais nobres que outras, por exemplo, desenvolvendo
teorias sobre as leis da física, descobrindo a cura para uma doença grave,
sendo o melhor jogador do mundo ou concorrendo ao Guinness World Record.O Guinness World Record começou por
ser uma publicação anual de recordes, tendo evoluído recentemente para um
programa televisivo. Estes recordes eram, no início, coisas comuns como o
levantamento de peso ou a ave mais rápida do Mundo. Contudo o conteúdo dos
recordes começou a mudar centrando-se cada vez mais em coisas insólitas.Antes, prezava-se um atleta que
conseguia um resultado fora do comum, hoje presenteia-se quem, por exemplo, dá
um aperto de mão durante 33 horas e 3 minutos. Ou seja tem o mesmo valor um
atleta que trabalha horas a fio num ginásio e um individuo que consegue segurar
a mão de outro durante 33 horas. A minha pergunta é - será justo
presentear ambos exactamente da mesma forma? Não. Um investe tempo e recursos
para se superar a si mesmo, enquanto outro busca apenas uma oportunidade ganhar
fama.Recorrendo a um caso específico: o
senhor Y é atleta de alta competição em salto em comprimento e o senhor X é
apreciador de hamburgueres. Um dia, o senhor Y atinge o melhor resultado de
sempre na sua modalidade, é medalhado pelas entidades competentes do atletismo
e pelo Guinness.Nesse mesmo dia, o senhor Y alcança o
recorde de comer o maior número de hambúrgueres. O senhor Y, assim como o
senhor X, foi premiado pelo Guinness World Record, a única diferença é que o
senhor X vai ser capa dos jornais desportivos e o senhor Y vai ser notícia em
tudo o que é jornal e canal televisivo.Existem aqui duas questões, a
primeira é a diferença de protagonismo dado a ambos recordistas. A segunda
prende-se com questões éticas pois a maior parte dos recordes mais recentemente
registados na lista do Guinness colocam em perigo a saúde humana. Comer inúmeros hamburgueres, ou engolir espadas não são actividades, de todo,
saudáveis, no entanto as pessoas continuam a desafiar todos os limites para
poderem ter algum protagonismo. E como é óbvio a indústria do entretenimento
aproveita porque é melhor mostrar alguém a pôr molas da roupa no corpo do que
relatar problemas mundiais.