O surgimento da Indústria Cultural leva à propagação em
grande escala de ideias como as do homem e mulher ideais, cujas necessidades,
objectivos, aspirações e interesses estão definidos e inevitavelmente ligados a
bens supérfluos, produzidos e distribuídos em massa. É com base nestas ideias
que a indústria põe em prática uma segmentação de consumidores, regida por
critérios como o seu sexo, idade e até mesmo etnia.
Esta categorização leva-nos, enquanto consumidores, a
acreditar que as nossas necessidades individuais estão a ser atendidas e que
temos, portanto, uma maior liberdade de escolha que nos permite optar pela
solução que melhor se adapta às nossas características. No entanto, muitas
vezes, esta segmentação não passa de uma divisão com base em estereótipos e
que, na realidade, não é feita para beneficiar o consumidor mas antes a
indústria, que agora consegue abranger uma maior quantidade e variedade de
indivíduos.
Tomemos o exemplo da marcar Gillette. Embora esta se tenha
tornado conhecida pelas suas lâminas de barbear para homem, há alguns anos
passou também a comercializar a Gillette Venus, uma gillette para mulheres.
Apesar de ambas as marcas terem o mesmo propósito, as diferenças que se
verificam entre as duas são mais do que evidentes. Para constatar estas mesmas
diferenças basta visitar o site de cada uma das marcas.
Na página inicial da Gillette Venus encontramos
repetidamente a opção “Find your perfect match” (algo como “encontra a opção
ideal para ti”), que nos conduz a um teste, cuja primeira questão nos pede para
selecionar três imagens que, para nós, representem um dia perfeito, com
respostas como “Romance” ou “Pool time”, acompanhadas pelas respectivas
imagens.
Não só este teste reforça a ideia de segmentação de
consumidores, já dentro de uma outra segmentação (por género), como nos prova
que, muitas vezes, não há qualquer lógica na sua origem, uma vez que após a
questão mencionada, são apresentadas mais algumas com a mesma irrelevância no
que toca à escolha de uma lâmina para depilação. No site da Gillette para
homem, embora seja possível consultar um catálogo com vários modelos, este não
surge na página inicial com a mesma relevância que na página para mulheres.
Quanto ao método de escolha, não envolve qualquer teste.
Outras diferenças evidentes nos sites, bem como nos próprios
produtos, são a utilização de uma paleta de cores diferentes (mais suave e em
tons pastel, para as mulheres, e em tons escuros e metálicos, para os homens),
formas totalmente distintas, com curvas na Gillette feminina e linhas rectas na
masculina. As diferenças continuam na apresentação dos produtos ao público, com
a Gillette feminina a recorrer a termos como “breeze, satin, sensitive,
embrace” nos nomes dos seus produtos, em comparação com a versão masculina de
“Fusion, Power, Turbo”. A diferença mais evidente seria no gel, em que a
expressão “cooling sensation” (F) contrapõe “Arctic Ice” (M).
Por fim, a própria publicidade de cada um não podia ser mais
diferente, com cenas na praia, com amigas, para as mulheres e com homens saídos
do banho, a fazer a barba, sozinhos, para o público masculino.
O exemplo da Gillete parece-me, por isso, um caso óbvio de
segmentação de consumidores, segundo estereótipos presentes na nossa cultura,
como a ideia da mulher como frágil, suave, emocional, delicada e a ideia do
homem como prático, simples, eficaz, forte e confiante.
No final, ambas as marcas e os seus vários modelos cumprem
uma mesma função: depilação. No entanto, eles são-nos apresentados de tal forma
que parece correcto e natural que uma mulher, tendo a escolha, opte pela versão
feminina e que um homem, na mesma opção, opte pela masculina.
Página da Gillete: http://www.gillette.com/pt/PT/home.aspx
Página da Gillete Venus: http://www.gillettevenus.com/en-US/
Página da Gillete: http://www.gillette.com/pt/PT/home.aspx
Página da Gillete Venus: http://www.gillettevenus.com/en-US/