A SNCF - Société Nationale des Chemins - criou uma nova estratégia de marketing “Europe, It’s just Next Door”
«Imagine if you could be connected from one holiday destination to another in real time, well, that’s exactly what SNCF Railways did for their latest campaign, ‘Europe, It’s just Next Door’. Interactive doors across prominent tourist locations in Europe, where each door hid full-bleed LED Screens, connected live to other parts of Europe, showcasing specific cultural attractions! »
Porém, o que se sucedeu, nesta campanha, não foi exatamente conetar um destino a outro, como a citação deixa transparecer, mas reproduzir os vários destinos em localizações diferentes. Não foi de facto a melhor forma da empresa SNCF demonstrar o seu contributo na aproximação de destinos, apesar da atividade poder ser algo integrável na categoria televisiva atual – entretenimento ou mesmo publicidade. A experiência em si não traduz da melhor maneira os objetivos da empresa, além que retira a dimensão/condição humana de se realizar uma viagem.
A presença física, as experiências inesperadas, o possível clima desagradável em contacto com o corpo desabituado, foram substituídos pela comodidade de o indivíduo permanecer inalterado num mesmo lugar e assistir tudo à distancia de um clique. Ou neste caso, de um abrir de porta interativa.
Haveria sim uma ligação mais próxima entre destinos/lugares se houvesse uma transferência de algo. Senão de pessoas, de outro modo.
A visualização de uma experiência nunca será a experiência em si. Pelo que não se sucede nenhuma transformação no indivíduo depois de se submeter à atividade. O mesmo não apreende nada que o enriqueça. O sujeito não pode afirmar que esteve no destino, nem que viveu o que lhe foi reproduzido. Pode mesmo comparar-se ao acompanhamento de uma reportagem em direto sobre um local pertencente à Europa.
A Europa não é a sua reprodução num ecrã, nem apenas os ângulos captados pelas câmaras e transmitidos pelo ecrã da porta interativa. Existe todo um ambiente que é sujeito a uma seleção de aspetos que darão a conhecer o destino tanto à pessoa que vê este objeto no seu passeio matinal, quanto à pessoa/telespetador que assiste à publicidade na televisão.
Nesta seleção são indispensáveis as várias câmaras que captam o motivo in absentia.
É notória a necessidade de mecanismos para usufruir destas representações de lugares numa mesma localização e momento. Representações essas tratadas/anunciadas como os lugares propriamente ditos.
Assistimos assim a uma distanciação cada vez maior do motivo original, dado a conhecer através de dois tipos de reprodução. A reprodução que os LED Screens de cada porta fazem do ambiente real da cidade em questão e a filmagem deste evento que é transmitida para as nossas televisões. Ou seja, esta segunda a reprodução da reprodução e não do original. A perca do controlo do número de reproduções também se torna uma questão a ponderar.
A publicidade raramente sobrevive aos dias de hoje sem a alusão ao chamado mundo do espetáculo. Comparticipa dele. Torna o produto apetecível pela ideia de facilidade, e pela apresentação de um supramundo com o qual o espetador gostaria de se identificar. E é exatamente todo este enredo criado em volta da realidade e da sua representação que vive a indústria e o consumismo. A verdade por si só já não cativa o consumidor, pelo que «Quanto menos promessas a industria cultural tem a fazer, menos explica da vida como algo com sentido, mais vazia se torna a ideologia que ela difunde.»