quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Corredor rosa, corredor azul

Não há altura mais pertinente do que o Natal para se falar sobre o brinquedo da actualidade e denunciar a sua perigosa acção hegemónica.

Quando tinha 14 anos, a minha professora de teatro na altura mostrou-me o livro infantil “Fumo”, que retrata a vivência de uma criança num campo de concentração no Holocausto. Eu não conhecia estas realidades há muito tempo, e isso fez-me pensar como a criança no nossos tempo vive completamente alienada do conhecimento, ignorante do mundo, do que ele é e do que ele foi. Não será relevante as crianças tomarem contacto com estas temáticas desde pequenas?

Esta separação da realidade talvez pudesse ser legítima se, como defendia uma professora minha no Secundário anos mais tarde, fosse uma forma de preservar e cultivar a bondade que é inerente à inocência da criança; “preservá-la do mal”, permitir que sonhe enquanto é tempo para isso. Mas o acto de brincar já não se situa na dimensão do sonho e do devaneio, como Freud apontava.

As bolas, os arcos, os piões e as singelas figurinhas humanas, tão simples, foram substituídas por imitações cada vez mais fiéis da realidade. Nos brinquedos de hoje já não há nenhum elemento em falta para a imaginação completar. Exigimos cada vez menos da criança, que já não é capaz de sustentar as suas narrativas sem objectos.

O plástico tornou-se a base dos brinquedos. O seu tempo de vida reduziu-se drasticamente. Já não passam de geração em geração e são assim desprovidos de toda a sua aura. Walter Benjamin constatou isto no livro “Reflexões: a criança, o brinquedo, a educação”.

Lembro-me de, em pequeno, folhear catálogos de brinquedos de cores brilhantes. Passava sempre à frente as páginas que abundavam em azul e as que abundavam em cor-de-rosa, porque nenhum daqueles brinquedos me agradava. Gostava de Legos, jogos de tabuleiro, kits de artes plásticas e de ciência para crianças. As coisas que ficavam normalmente nas páginas verdes ou laranja.

Esta é a outra frente de ataque do capitalismo aos brinquedos — uma divisão por género fortíssima, que não sei se surgiu com o intuito de segmentar o mercado para vender mais, ou com o intuito de promover desde cedo os papéis de género tradicionais (ou os dois).

É fascinante constatar a partir dos brinquedos o caminho inacreditável que, em 2014, o feminismo ainda tem pela frente. Num catálogo deste ano vi as palavras “brincar aos adultos”, seguidas de casinhas, cozinhas e electrodomésticos, com duas ou três meninas a brincar. Estas páginas ilustravam muito bem a ideia que Simone de Bouvoir defendia de que não se nasce mulher: torna-se mulher.

No corredor rosa do supermercado podemos tentar outras alternativas: talvez as crianças prefiram levar as bonecas ao cabeleireiro e à manicure, para ficarem bonitas para quando os maridos chegarem a casa. Ou então ir às compras. A história já é velha. No corredor azul, heróis, aventuras, coragem e adrenalina. Actividade e individualidade. Armas, força, poder. Ciência: inacreditavelmente os brinquedos de ciência estão no corredor azul.

Hoje fascino-me ao observar que a hegemonia começa a sua acção ainda mais cedo que isso: antes de nascermos já temos um conjunto de roupas compradas de uma cor que se presume que vamos gostar (o bebé pode ter roupas de qualquer cor, desde que sejam azuis ou rosa!). Isto pode ter efeitos desastrosos especialmente nas crianças com uma identidade de género diferente da que é esperada e idealizada pela família.

A cor da roupa antes do nascimento é só a primeira etapa de um percurso de vida previamente delineado que herdamos e que esperam que se concretize. A ideologia dominante anestesia logo nos primeiros anos de vida a possibilidade de diferenciação e distanciamento crítico, que lhe são uma ameaça. Isto reflecte-se depois numa cultura de intolerância e hostilização da diferença. Será esta uma das origens do bullying?

Eu não quero que as minhas filhas ou os meus filhos sejam crianças produzidas em série. Quero que a sua individualidade, os seus gostos e as suas manias se desenvolvam naturalmente, sem serem modulados por esta cultura hegemónica doentia. Temos que ter consciência da sua força e gravidade, e denunciá-la.