O parto é um dos momentos mais marcantes na vida de uma mulher a todos os níveis. Arrisco-me a dizer que será provavelmente até mais marcante para a mulher no papel de mãe, do que para o homem no papel de pai.
A mulher é quem carrega dentro de si uma nova vida, um novo indivíduo durante o período de gestação, é quem sofre no corpo as consequências dessa mesma gravidez, é unicamente o seu organismo que tem que se adaptar para que possa alimentar-se a si e ao feto.
O momento em que dá à luz é no fundo um momento de pura alienação, no qual a mulher recebe nos seus braços um "objeto" que advém de dentro de si, que pelo qual é responsável mas que contudo a partir desse momento deixa de lhe pertencer. Basicamente é nesse mulher que a mulher passa a ser "mãe" e que passa a estabelecer de imediato uma ligação irrompível com esse mesmo "objeto" (neste caso com o bebé), de facto por diante, a mãe tem que ser mãe e o filho tem que ser filho, o que significa que nesta relação de simbiose, sem a existência de uma das identidades, a outra seria também impossível. Sem filho a mãe não seria mãe e vice-versa.
Citando Karl Marx em "O trabalho Alienado" quando relaciona o sujeito com o trabalho e a sua alienação: "A culminação de tal servidão é que ele só pode manter-se como sujeito físico enquanto trabalhador e só é trabalhador enquanto sujeito físico."
Neste caso, o novo individuo que nasce e que é alienado de outro corpo para sempre terá uma ligação com a sua progenitora, porque só é possível que exista enquanto sujeito enquanto filho, e só é possível que seja filho enquanto sujeito físico.
É ainda curioso que de certa forma a mãe põe a sua vida num novo ser, que ainda nem o é, que está in absenci quando é concebido, mesmo que premeditadamente, mas essa vida apesar de passar a fazer parte da sua, deixa de lhe pertencer.
Tal como Marx afirmou em "O trabalho Alienado", "o trabalhador põe a sua vida no objeto; porém, agora ela já não lhe pertence a ele mas ao objeto." "(...) e se torna um poder autónomo em oposição com ele(...)".